quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

NOSSA IDENTIDADE


Ouço a música das esferas celestes ao entardecer,
E canto bem o contraponto ao solo.
Fecho os olhos e o sol ainda brilha.
Na minha sombra vejo você.
Li revistas, livros e jornais ansiosamente
Recortando e colando idéias do meu ser.
Hoje queimo essa identidade e
Misturo as cinzas ao ar da sua respiração.
Por amor, eu vejo e não vejo
O que quero e não quero; o que deveria e não.
Pensara que sabia quem sou
Mas quando nos vi, perdi a noção.
Queria ser você, que queria ser eu.
Meu passado promissor é o seu futuro.
Não quero que nossas vidas sejam iguais.
- Já não são, e insisto em lembrar disso.
Não cometa meus erros, aprenda:
Determinação, Agressividade, Beleza.
Num banho fundiremos nossas vozes
E de nossos olhos lavaremos toda escuridão.
E imperfeitos como somos, saciaremos
A sede que habita nosso coração.
09/03/06

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A HISTÓRIA DA GUERRA


E a Semente desentendeu-se com o Fruto.
E o Fruto libertou-se da Semente.
E a Semente entregou-se à Morte.
E a Morte coabitou com a Morte engendrando Vida.
E quando era tudo Escuridão veio à Luz a Penumbra.

E o Bem olhou para o Mal meio de lado.
E o Mal ajudou a levantar a parede.
E o que se havia de melhor sacrificado foi.
E ao degrau mais elevado chamou-se queda.
E pretende-se a ascensão olhando exclusivamente o fundo do poço.

E o olho direito diz que é verde.
E o olho esquerdo diz que é vermelho.
E o cérebro diz que é amarelo.
E a consciência calada, cega e surda.
E já não se sabe de qual lado é o certo.

E ocorre uma explosão imensa primeiro.
E sensações diversas digladiam.
E os sentimentos e intenções apodrecem.
E Alguns golpeia Outros.
E Ninguém assiste a Todos.

E a poeira há de baixar.
E tudo voltará ao seu lugar.
E do solo rico brotarão as árvores.
E no novo mundo que será.
E a Semente no Fruto estará.
14/02/03

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

17H15


Conversa telefônica:
Eu: - Boa tarde. Estava com saudade de ouvir tua voz.
Voz: - Ah...
Eu: - O que foi?
Voz: - É que eu tinha um monte de coisas a fazer... conversamos depois.
Eu: - Amanhã, no almoço. Não. À tarde. Tchau...

Acho que não sabias o que estavas fazendo
quando tu me matastes.
Eu só queria um pouco de atenção.
Eu poderia ter a atenção de qualquer um,
mas quando te chamei,
Eu queria era a tua
- migalha.
A carência mais profunda
gera o ódio mais arrogante
quando não é atendida.
Eu só queria comungar um pouco de algo contigo;
Mas vejo agora que tu não me queres.
Eu podia te amar,
e agora vou te ensinar a lição que pediste.
Posso ser muito mais indiferente que tu,
e o meu coração já planejou e executou
a tua morte.
A sorte foi que não podias ver meus olhos;
A tua sorte foi que tu não podias ver os meus olhos.
Eles exalam lágrimas
que dizem da dor de ser descartado.
Sorte tua não conhecê-la.
A minha dúvida
é saber o que fazer com todo amor que te dediquei.
Não apertarei meu coração
para que não me escape por entre os dedos
Eu sei que o melhor
é simplesmente deixá-lo livre
para amar e odiar.
Eu e Tu.
07/08/97

VIVA CHUVA

Vento, brisa, redemoinho, furacão, mais
água, rio, mar, vapor, igual a
tormenta, temporal, tempestade, chuva.
Guerras, tribulações, lutas.
Tudo isso me atinge
aos poucos, na medida em que
se torna minha luta interior:
o dia contra a noite,
06h x 18h,
consciência versus desejo.
Só escrevo quando estou na fossa
- por favor, não me jogue uma corda -
com exceções.
Vivo num deserto de delícias
por onde ando correndo
rápido
pelas duas estações,
o Enterro do Verão e
a Festa do Inverno,
estados de inferno
com meus anjos e demônios
que criei ao meu redor.
Não há paz e vida:
vida é guerra,
paz, só com morte.
Guerra da
rotina contra aventura.
Atraem nuvens.
Nuvens negras que não indicam
tribulação, mas bênção
de chuva.
Ela deixa irreconhecível, gasto
algo que se deixe,
palavras.
E é mais poderosa
que o sol, calor, luz:
ele custa a secar
o que ela molhou já,
terra.
Ela molesta e abusa
de todos.
A gritos, falas e cantos.
Claves, chaves,
fusas e semi-fusas
confusas, confusos.
Ruídos nos telhados,
na terra, da terra:
cheiro de vida,
que encerra morte
no encalço de seus pés.
28/02/96

VINHOS

É tudo sempre igual.
A essência nunca muda,
O continente varia muito,
O peso líquido do conteúdo, pouco:
Produção de qualidade.
Fura-se o frasco (a taça)
E o vinho derrama-se
Vinagre.
Doce borda e início
Final fisgante e amargo.
Quem bebe de um
Já bebeu de todos.
Um, é apenas parte do todo, e
A parte é a mesma coisa que o todo.
O que você pensa que muda é
Quando está mais perto ou mais longe;
Se você vê sempre ou nunca mais.
Todavia, não importa:
Se você tem (teve) um,
Tem (terá) todos.
- Não é realmente preciso, é?
03/03/98

VIAJAR

Vou pegar um trem e sair por aí
Sem destino certo, sem ter o que temer
Voar de asas; vem, vento da imaginação
Já estou viajando e vagando
Como a nuvem do meu coração

Sopra vento Norte, do Sul, o sopro da vida
Corre pelo mar nas vagas das ondas
Vem, vento, liberdade azul

Nova direção, estão as novas asas
Voando pelo chão
Queimando o que pisar
Trazendo e levando
O que será e o que já era!

Vou voar, vou partir, vou correr
Vou pegar, vou sair, eu vou ver
Vou queimar, vou sentir, vou viver

Viajar!
16/07/96

VIAGEM

- Eu sou o ladrão que escreve,
roubado de seus despojos,
vomitando minhas angústias;
esta é a explicação de você
não encontrar alegria por aqui.

A espera é interminável,
e meus olhos se cansam de tanto ver.
(Eu detesto visões, porque não posso pegar os anjos...)
Olho e não vejo nada: meus olhos estão abertos,
só podem (e só querem) ver o Mal
pela estrada que roda na janela,
nos olhos verdes que me perseguem:
eles estão atrás de mim.

A espera é interminável,
e meus pés se cansam de tanto andar.
Não caminho ao seu encontro,
eu não quero mais lhe ver.
Aqui de cima é mais bonito olhar
mas ninguém presta atenção,
porque ninguém presta mesmo...
Eu queria uma foto sua,
só que o tempo acabou
(Nem tive tempo de começar:
tenho que fazer algo urgentemente!).

A noite (agora não) longa guarda segredos
que nem o dia tem ânimo de revelar.
Expor-se dá muito trabalho.
A dor se condensa e se materializa em grossas lágrimas.
Eu sei o caminho que elas fizeram:
me deram muito trabalho
e ainda dão.
Bem que eu tentei,
mas você não me quer.
Não o culpo ( - corpo perfeito)
a rejeição é o que dói mais.
Apenas respire por perto.
Eu vou deixá-lo dormir.

Meus sonhos são vivas lembranças
de coisas que não vi acontecerem
e minha memória parece virgem
mas eu posso sentir
e sinto tudo intensamente,
sensacionalmente demais.
A dor vem do nada,
As lágrimas também,
E eu vou para o Nada,
aqui não tem lugar pra mim.

O que eu sinto de bom
é este único instante
quando estive ao seu lado:
o silêncio era o único
e eu tratei de acabar com ele.
Não adianta me consolar
não sei se errei
ao amar você:
Eu nem sei direito o que aconteceu conosco,
se lhe amei, não consigo descrever.
Aqui chorei sozinho, e...
- Será que você dormiu pensando em mim?
Talvez na eternidade
eu descubra
que antes, nós éramos um:
você me conhecia, e
os seus olhos eram os meus.

Chorei demais - se é que adianta -
e espero ainda lhe encontrar.
Se eu mandar um recado
Vou receber resposta?
Ainda vou voltar,
só pra lhe ver.
16/11/97

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

VEJA O MEU CORAÇÃO


Vê se em meu coração
Ainda há saudades suas e as leve embora com a sua
Presença.

Dorme em meu peito
Como o amor que um dia conheci primeiro
Aqui.

Lembro-me como, e agora
Você inunda minha mente
De imagens doces, cálidas,
E odoroso toque.

E tudo acontece porque
Eu penso em você
Com todo meu carinho
De quem sabe ouvir o amor dizer
Baixinho
Um "eu te amo" escrito
Por seus dedos em minha pele.

Não me contento e não me retenho
Com mixarias a ninharias.
Se sentir intenso é igual a não sentir,
Prefiro nosso amor morno
Ao ponto de ebulição.

Incapaz seria de entender Amor,
Então deixo de querer!
Desnecessário é!
Que seja incompreendido, irresponsável, correspondido.

Beijei as flores de sua alma
Adornadas com seu espírito
A visão de seu corpo parece tão real...

Mas na verdade, estou dentro do seu coração.
08/03/02

VAGAS

Pensar nas coisas e fazê-las devagar.
Pensar nas coisas que me fazem divagar.
Pensar nas coisas e de vagar vagar.
Prever que deixarei um espaço próprio.
Saber que apreenderei de forma diversa.
Conhecer que na origem toda essência é igual.

Comunhão de almas pela boca é idéia antiga;
Prazer associado ao contato físico é idéia antiga.
O contato físico comunga as almas, e
O beijo na boca é prazeroso.

Respiro devagar para divagar no vagar.
Meu olhar é tranqüilo e impassível -
Só temo a quietude do mar e a impiedade do lago.

Sou imune à minha vaidade, pois ela é tão grande que desaparece aos olhos meus e teus.
Curvo-me a meus pés e recolhes-te em teu colo.
Descanso placidamente em nossos olhos negros
- Que de negros só têm o nome.

Olhando o céu azul vi digladiarem-se nuvens,
Trocando letras e algo mais.
E no espelho dessa superfície
Fundiram-se meus olhos: o verde e o azul
Num castanho prateado.
14/03/03

TRANSPLANTE DE CORAÇÃO

olho, seus olhos.
olho, no olho.
colho, restolho
velho, um sonho
cego, jogado
no belo, restolho.
olha, a fólha
queimada, arbórea.
falho, no olho,
cego, em mim.
sofro, no sonho,
findo, pra mim.

fraco, me escondo
aqui dentro, ruim.
espêlho, escondo
meus olhos, de ti.
cristalino, opaco,
retina, e córnea.
queria, ser cego
náda-além-ver, de mim.
a morte, de novo,
me alcança, enfim.
10/06/96

TRANSFORMAÇÃO

Deixai-vos ao Tempo e ao Vento,
à Tormenta e à Seca.
(Não podeis mesmo escapar...)
Se subsistirdes, perecestes.
Vos fizéreis mais resistentes que a penha
que é vencida pelo Vento.
Ser levado pelo Vento
não é ruim.
Não vos enganeis: ele não é
vão, inconsciente ou inconseqüente.
Sabe muito bem de onde veio
e para onde vai.
Quem dera fôsseis assim!
Então, transformai-vos.
Expode-vos a mudanças, coisas novas.
Expode-vos ao Tempo e ao Vento,
à Tormenta e à Seca.
(Não podeis mesmo escapar
pondo-vos na ego,
uma concha, uma caverna.
Todo lugar é pequeno
para servir-vos de esconderijo.
Exponde-vos!)
04/08/96

TERCEIRIZAÇÃO

Não sei porquê você me deixa:
Não quer meu tempo e meu corpo;
Não tem ciúme e até gosta de sofrer.
Sinto falta do espelho possessão.

Não tenho nada pra fazer.
Só o silêncio me corrói.
A solidão é o que me cerca.
Lá fora não há nada.

Não há dor que me sustente.
Não há dor que me destrua.
Estou de mal com a loucura,
Eu tenho que viver.

Oh! mundo cruel.
Não tenho forças para te dizer adeus.
Não morro nem vivo,
Eu não estou aqui.

Meus olhos são canibais
E meu estômago, herbívoro.
Amor não existe.
Perdi meu bom
Sentido e razão,
Inerte, insensível.
13/08/97

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

TER NURA É TERNA


Oi, minha irmã!
Cá estamos nós de novo:
eu sozinho na rua
e você em meu coração.
Ontem à noite sonhei
com um haras bem povoado
mas hoje os eqüinos
me olham como se eu fosse um bicho.
(Você sabe como é fria
uma cama, um cobertor
e aquele gosto de cabo de guarda-chuva
curtido avolumando-se na boca
até de manhã -
Se você me abraçasse
eu colocaria a cabeça em seu peito
e adormeceria sentindo
a aura que o ar quente faz ao seu redor.)
Os cabelos e os pés das pessoas que passam
estão molhados com a chuva fina
enquanto eu estou seco - por dentro também.
Não olhei para minha alma hoje
e esse pode ser o motivo de
ninguém a olhar também,
só eu presto atenção.
Queria cuidar de você, querida
bem como gostaria de ser cuidado.
Mas todos estão bem fechados
e protegidos em suas próprias casas,
ou passeando em seus belos carros.
Fazendo algo de suma importância:
não perceber a lentidão com que
a inutilidade do fim de semana passa.
Ainda que um grupo se confine no mesmo espaço,
os corações frios permaneceriam a sós,
indiferente a quanto dinheiro ou tempo gastem.
Essa superficialidade não vê minha profundidade.
Sou apenas osso e peles, pele e ossos;
Músculos mirrados e olhos agudos.
15/12/02

- TAMBÉM

O inferno preso na alma
e no meio do paraíso.
No céu a água ativa
tornando ameno meu sofrer:
receber a luz do sol
e a refletir para as estrelas.
Contracenar com a luz cheia
que sabe a diferença
entre paixão, amor e gostar;
Entre verdade, mentira e meia-verdade.
Estava deixando o tempo passar...
Marte passar pelas costas da lua.
As nuvens passam seguidas
e esparsas perante São Jorge
que guia o dragão frouxo noturnamente.
É impossível acreditar
que há gente que não conheça
as Leis da Noite, da Escuridão.
Porque os olhos são duas chamas vivas
não parece terem direção:
- Vou pra onde você me levar,
qualquer lugar serve.
De um lado para o outro
de caprichos e agrados
mas não importa muito.
Olhe bem o meu rosto,
fale o que quiser, mas saiba
com quem está falando.
Não me confunda, não me amedronte;
Eu poderia não estar aqui.
Vi muitas estrelas cadentes
Mas eram mentira,
como estas lágrimas que o vento arranca.
Eu sou livre
(e nunca mais serei o mesmo.)
e sou preso a mim.
Sou fiel ao coração
Eu tenho histórias,
eu tenho vida,
agora estou diferente.
Mas não sabia dos seus olhos,
que como os meus não podiam enxergar.
Eu arrisquei a minha vida
na velocidade da sua loucura
E agora você sabe
que sou mais louco e mais louco.
Hoje a noite não precisava terminar
- e quase não termina,
porque esta escuridão é quase sólida -
mas fizemos a nossa estrela
com cinco pontas,
cinqüenta dedos e
o brilho reluzente
da cauda celeste até a terra.
Aquele mundo lá fora
que não parou no tempo
e nem sonha acordado.
20/07/97

SUBSTITUIÇÃO

Como se já não bastasse
meu abraço te manchar de sangue,
agora meus olhos te ferem:
Sou uma agressão a teu olfato e paladar;
Pelo menos com minha escrita não prejudico teus ouvidos!
Em mil anos de solidão
não aprendi a lidar comigo - quanto mais com outrem.
Então fujo de ti e vou para mim
como se houvesse diferença (e há)
e a claridade me cega tanto...
Ainda preciso te olhar em silêncio,
te beijar à distância,
beber teus perfumes ao telefone, e
ver teus encantos em outros flancos.
18/02/03

SONHO FEITO

Que me vejam morrer
aqueles que eu amo, pois
aqueles que me amam
já me amam mesmo...
Não aceito seu amor
e você não aceita meu.
Preciso deixar você ir
sem ao menos perguntar se um dia...
Conheço meus limites
e sei que nada é em vão.
Embora pouca coisa surta efeito
(uma liberdade reprimida).

O que foi feito de minha vida?
O que fizemos com as nossas?
O que você pensou,
o que você fez...
O Tempo simplesmente aconteceu.
Você estava preparado?
(Como é bom voltar ao trabalho
na rotina normal, sem feriado.)
O caos no interior de um leprosódromo
é inimaginável.
Há algumas noites atrás
você me viu -
Falei dos meus olhos?
Bom seria que sem falar...
16/06/98

SÓ ANDANDO SÓ

No Caminho, ao caminhar
De repente me senti sozinho.
Não era uma sensação nova,
Pois desde sempre que me entendo por gente
Vi poucos passarem por mim,
Correndo e até parados.

Há muita coisa na beira da estrada
Pra se distrair;
Há o clima e a paisagem para
Preocupar, quando não se consegue desfrutá-los.

E eu sempre conversei
Comigo mesmo,
Até que num oásis
Deparei-me num espelho d'água;
E despertou a vontade,
De estar com mais alguém.

Não que fosse incompleto ou infeliz
Mas para que minha felicidade fosse maior,
Porque NÓS SOMOS tem grande vantagem
Sobre EU SOU.

Ainda assim caminhei meu caminho
E pode parecer que estou sozinho.
Dentro de mim, porém, tenho a certeza
De que há alguém andando ao meu encontro
E que procura por mim.
Não teremos dificuldades em nos reconhecermos
Pois será como se nunca estivéssemos separados.
Num instante só serei presente e presenteado.

Caminho eu, comigo.
Trago todos os lugares por onde andei,
Todos os momentos que vivi.

Por isso converso com você, Amor,
Aguardando um dia poder ver seus olhos.
09/02/01

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

SEMENTES NOTURNAS


Estou trocando os dias pelas noites,
pelo menos no fim.
Mas não acho o teu semblante
nem nada do tudo que eu quis.
Amanhece e tudo está perdido:
pelo menos sei aonde estou,
para onde eu tenho que ir.
Estou sozinho
e não há nada de novo nisso.
Estou perdido
mas no caminho achei o meu espírito.
Sem a Estrela,
o meu preciso não é preciso.
Vira desejo ardente, como à meia noite.
Mas de perto
bem lá dentro do que chamo coração
existe aquilo que dói,
o vazio tamanho
que nem o mundo o preencher
seria capaz.
Seria capaz
de amar mais outro nome de
mais outra alma aprisionada
num outro corpo mais?
Se o amor me fizesse saber
O que é não solidão...
Eu miraria nos teus olhos
e não precisaria de explicação.
Meu desejo
me mata e alimenta
sempre à noite
porque o ocaso é depressão.
Quando o sol se vai
minha alma voa leve
e leva meu corpo.
Cheguei cedo demais pra escuridão.
Não me olhes,
eu vou com frutos
e me trazes sementes.
Reconheço o teu olhar.
Todos dentro aqui estão.
Não machuca, não condena
Porque também podes sentir.
A lágrima corre aqui por dentro.
Eu sinto a tua falta...
Eu sinto a falta...
Eu sinto falta...
Eu sinto...
Falta...
13/10/97

SANGUE SECO

A música que ouço agora
não foi tu quem tocaste.
Lembro de tua voz
projetada para o espaço vazio
atrás de mim por teus olhos.
A emoção que tenho é minha
e única por cada pessoa.
É uma pena tu não sentires o mesmo
(ou deixardes de mostrar o que sentiste
pois o teu medo bobo
só te afasta do teu íntimo).
Não precisei mentir
e por isso hoje
tenho na boca o sangue
de uma ferida limpa
em teu pescoço lindo;
Enquanto teus dentes degustam
purulento sangue venoso
proveniente de meu seio.
Eu sei que toda a intensidade
do amor, da dor e do ódio que sinto agora
vai sedimentar-se em algum lugar
bem no fundo do meu coração
e que toda vez que te vir
renascerá das cinzas
a eterna afeição
que sempre tive por pessoas
que fazem parte de mim.
Mas não leia meu lamento,
e não me ouça.
Pois as únicas coisas que
quero ser lembrado por você
é que um dia nossos olhos sorriram.
06/05/01

RIUS SINUOSUS

nasce da rocha a água
anda entre as folhas
e reúne-se com outras águas
de outras fontes
que de calmas caudalosas formam
um ribeirão acontece
e contorna obstáculos
vence por cima ou por baixo
contorna e forma curvas
meandros largos e
calmos, navegáveis
sua superfície oculta
a guerra do leito em se preservar
água lava e leva tudo
quase tudo é limpo
e num ponto importante
o rio faz a ponte, conexão
e noutro faz a distância
a separação.
o rio é resistente em se deixar ferir
e flui ao lesar o leito
o barco sofre a repulsa
da água e a fere.
a corrente de energia do
rio impele o barco, desvia-o de seu objetivo.
mas quando chega-se
ao outro lado, à margem,
o barco não sabe por qual
caminho passou
e o rio sente saudade
da dor.
têm dificuldade de partir para
caminhar e de chegar de
caminhar
o rio não permite que faça
parte de sua vida
e sustenta a vida do
barco por sentir-se só
em meio a tanta vida.
quando deságua no mar
gostaria de estar mais rico
compartilhando suas águas
com a maior quantidade
de seres possível.
12/12/02

REPRESENTAÇÕES

Pode a mesma fonte
jorrar água doce e amarga?
Há quem goste do salgado
como existe preferência pelo melado.
Enquanto dois podem discordar do sabor
da mesma laranja ao chupá-la.
Que importa, se ainda é laranja?

Quando pus seu véu vermelho
(sangue inocente tintura)
pude ver que eras cego
conduzindo-me para atravessar a rua.
A hipocrisia é um ranço
aderente ao envelhecimento -
nada continua como sempre foi
e todos agem como tal.
Pensam em seus corações
venenos para suicidar outros,
seus dentes brancos revelam
que tingimento bem feito não desbota.

É o triunfo das mentes pequenas
sobre a Mente que tudo pode.
A coletividade que implica solidão.
Meus olhos que queimam como o gelo.
13/06/02

PRIMUS MATERIA

Faz bem ao meu coração
Dizer que estou amando.
Mas a mentira
da tua presença
deu-me rasteira, coração ausente;
Vazio do que efetivamente preenche.
A noite olhou-me
alta e cheia: clara e úmida,
testemunha e só isso,
embora eu precisasse de mais.
Preciso não deixar
apagar a chama do fogo
sagrado no meu coração
(se ainda estiver por lá...).
Há tanto tempo não uso
que aranhas habitam.
Ele está lá, tímido e quieto,
mas vivo.
Olhando e às vezes ventando
as cinzas; puro olhos e ouvidos
aromas, e sabores.
Não senti a tua pele por mim,
teus olhos sobre mim
no escuro sob tuas mãos,
nossas bocas bebendo lágrimas
doces de fontes amargas.
Acorda! O sino da igreja diz
que o sol vai alto e como a lua
teu cheiro foi embora
deixando-me mercúrio nas mãos.
11/09/03

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

PRATA EM ANEL


Te procurei no céu, no ar, na água e no mar.
Te encontrei no fogo, na guerra, sempre a navegar.
Sem casa, sem mãe, sem filho ou amigo.
Contente, e sorrindo, de papo pro ar.

Maravilhoso é te ver, te ter, te tocar e sonhar
Com teu perfume, teu brilho, tua face sorrindo
No céu, do mar de nuvens dissolvendo, te formando (que lindo!)

E tu nem vês nem sabe que existo
Ignoras que de longe estou te curtindo.
Se bem que distâncias não há para um amor
Que eu não esqueço, que não se consegue apagar.

Porque vive sozinho, da esperança de que
Num tempo, de um futuro longínquo
Não mais só em sonhos eu possa te encontrar.

Embalados num barco, por um canto
Apertado, sofrido, de um amor espremido
De um coração aflito, quase a escapar
Do peito cansado por suportá-lo bater e sofrer.

A Liberdade então levou o Amor à Felicidade,
E não ligamos para o povo ao redor
De nossa individualidade

Uma que esperei desde aqueles tempos pueris.
Quando não sabia de nada e fiquei na saudade
Da lembrança tua e nossa inocência
Santa coerência

Nunca te entendi - e nem vou ou pretendo,
Porque tu és assim: premonição simples e mistério.
És o Ar do mar do céu que eu navego.
12/02/96

POS VITÆ

Tendo letras à minha frente,
os cabelos caem
não pelo exercício mental,
mas pela massagem nervosa.
A música me atrapalha a pensar um pouco.
Ainda não acredito na morte:
os fantasmas se postam à minha frente,
nos meus ouvidos e na minha lembrança.
O passado travestido de presente.
O sucesso muitas vezes vem de mãos dadas
com a tragédia,
e de novo tenho medo desse casal.
Reparei outro casal: Morte e Glória.
A segunda vem em geral depois da primeira.
Não fiz nada ainda
e não me transformei um, num mito.
Minha vida será eterna - como
o ocaso casual.
A morte é um instrumento drástico na vida:
a muda radicalmente.
Novos rumos e novas dores:
novos destinos.
Domingos mortalis.
São palavras verdades:
não o presente que você lê,
mas o presente quando escrevi.
Não quero que tomem
o não escrito pelo escrito;
que não desloquem o foco do inteiro para
frases bobas, vazias, só de efeito.
E passem a me questionar
quando sou relativamente simples.
Toda letra tem sentido e vazio.
Eu e você.
Paixão e Amor
no mesmo caldeirão fervente.
15/03/96

POETAS MORTOS

Os poetas estão mortos
Os versos despedaçados
Os pensamentos difusos
Os gestos paralisados

Estou coberto com sete palmos
de chuva; e o barulho dela
ensurdece; As rosas crescem
comigo a adubá-las.

Os meus olhos agora fazem parte do todo:
vejo ilimitado, inacessível.
O globo ocular agora é só globo.
A expressão máxima quintessenciada.
21/10/96

PLANTIO

Durante parte da minha vida, estive me preparando para este momento.
Sabia que um dia ele chegaria. Aprendi a paciência, quando todos ao meu redor se desesperavam com a situação. E também me desesperei muitas vezes, quando todos ao meu redor estavam calmos... Ser preparado pela vida nem sempre é fácil.
Encontrei um método relativamente fácil para me servir de válvula de escape contra as vicissitudes da vida: escrever.
Escrever tudo. Tudo que sentisse sufocando, para desafogar em poemas e diários. E então, mais água se derramava por sobre o fosso.
Até que um dia, de tantas águas jogadas sobre mim, vi horizontes mais distantes (pelo poder erosivo da água sobre a terra). E o vento soprou no meu rosto uma nova idéia. Meus olhos brilharam.
Tentei retirar as pedras que impediam o caminho interior.
O fogo crepitando cada vez mais, movendo o ar (ou será que era o contrário? - O ar se movendo intensamente fazendo o fogo aumentar?).
Fiz a opção de não escrever mais referindo-me às coisas ruins: as palavras fixam as idéias, (os pensamentos moldam a energia, enquanto os gestos acumulam-na) criando modelos de padrões de pensamentos negativos, gerando uma corrente com cada vez mais elos cada vez mais fortes. Uma teia venenosa e nociva. (Por isso até esqueço de escrever em meu diário...)
Isto, porque é sabido que as palavras têm poder, energia de mudar a realidade.
Se você deseja alguma coisa, tome muito cuidado, pois pode vir a se realizar.
Tudo deve respeitar o curso de Amor. (Que é o maior rio da Vida.)
Somos totalmente responsáveis pelo que pensamos das pessoas. - Os pensamentos de ódio e similares atingem mais intensa e principalmente o seu emitente.
Pessoas preconceituosas colhem o que plantam. Mas lembre-se: o fruto não tem o mesmo formato que a planta, e a planta não tem o mesmo formato da semente. O efeito dá uma grande volta antes que apareça na sua frente (de repente já até esquecemos a causa...).
Todo momento é de colher. Nossas atitudes são sementes e fruto ao mesmo tempo. Hoje estou colhendo o que plantei ontem, e planto agora para que possa colher amanhã.
Me preparei para o trabalho, e ele veio.
Mas alguém me disse que não posso viver sem amor. Eu já sabia, mas amava longe, de uma forma impessoal. Era necessário mais, muito mais que isso para viver, e não apenas sobreviver. O dinheiro não tem finalidade se não for gasto com sabedoria. E a vida não tem graça se não for vivida com Amor.
(Tenho que encontrar alguém para amar. E fiquei mais animado quando pensei em sua existência.)
O Amor prefeito. Onde não há o desequilíbrio da Paixão. Porque paixão é uma doença, perturbando todo o funcionamento normal da pessoa. Em um segundo sai-se da euforia para a mais profunda depressão; ciúmes, orgias, dependência emocional, fuga etc. A mente e o corpo subjugados pelas sensações e emoções.
Os sentimentos nobres sim, é quem deveria governar. E mais ainda a aspiração espiritual. E no encontro de duas almas o corpo estaria condenado a ser escravo, servindo apenas de combustível na senda do rio do Amor. Duas Almas que se ligassem mutuamente, correspondentemente.
Corpos elementares.
Almas suplementares. e
Espíritos complementares.
Pois somente onde há uma harmonia encontra-se estabilidade durável. O Amor nunca pára de fluir: somos nossos corações que tomam barcos e rumos errados. Somos finitos navegando em um rio infinito... Com embarcações a um passo da eternidade.

Posso estar totalmente errado quanto ao meu julgamento a seu respeito e minhas expectativas com relação ao caso.
Mas quando fecho os olhos...
17/10/00

PERFEIÇÃO

Meu coração está vazio.
Minha alegria é volátil.
O meu corpo sente frio.
Não quero estar enganado
- apenas certo -
quero o calor da sua mão.
Sei aonde vamos
mas tenho meu caminho.
Estou parado
mas tudo vem chegando perto.
Meu coração está dormindo.
Não acorde enquanto o mal está lá fora.
Eu sei sou fogo,
e sou caminho.
Não mate minha fraqueza.
Estou triste.
Acenda minha fogueira devagar
e mais não sentiremos frio;
E o meu desejo não dormirá rapidamente.
Melhor é que seja um instante
resgatado pela eterna beleza
de ser único em meio à vida
comburente da pequena fraqueza
que sustenta o homem idôneo
e talvez incandesça-o à noite
tornando-o mais pleno
de quando era só pensamento e ideais.
A sua vida vai mudar.
Eu sou um coração que esperei
até a sétima alma aparecer
perfeita como apalpei,
beijei, lambi, chupei,
mordi, amei.
11/08/97

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

PASSOS


Só ouço passos.
Passos surdos.
Marcas repisadas.
Caminhos novos.
Passos que vão para longe.
Será que alguém
(além do Tempo)
vai embora?...
Sim.
O Tempo é silencioso
e os passos surdos soam.
Não posso repisar suas pegadas:
nunca encontraria.
Temos que tomar caminhos opostos
para estarmos frente a frente
em algum outro lugar
num novo momento
(talvez a hora certa).
Você compreende?
Nosso caminho não existe.
Tenho o meu; você o seu;
e o Seu caminho.
Seus sapatos não me dizem nada:
de onde, para onde.
Seu silêncio me fere.
Eu amava...
(Porque não acabou, meu amor
se perpetua consigo.)
e não tinha seu amor.
Mas aprendi a não dizer adeus
por não saber quando era a despedida.
Me acostumara com sua presença.
Me acostumo com sua ausência.
Consigo levou minha paixão.
(Não amarei mais ninguém.)
Talvez juntos, pegaremos do chão
o que de mim foi levado
em silêncio,
com o Tempo.
Talvez eu espere no mesmo lugar:
não tenho força para me mexer.
Esperarei seus passos.
Aí, encontrarei a rosa
no deserto do seu coração.
23/08/96

PADRINHO

Vê.
Vazio
o prato solitário
se equilibra
cheio de
Preto e Branco.
Meu desejo
o vento espalha
pelos quatro cantos da Terra:
o meu Amor é disperso,
verdadeiro e diverso
de minha vontade.
Que meu querer fosse
solitário
como penso que sou.
Sempre depende de alguém
o meu limite:
ele é quem impõe
coroa de espinhos
ao meu coração.
Seria tudo mais fácil
se não existissem desejos
que vêm e vão
pelos corpos diversos
inconstantes
sem conteúdo ou sentido
que vivem em vão.
Agora, me dá a Perfeição.
O prato se quebra sozinho,
não tem equilíbrio no chão:
cai e joga pra fora o vazio
de achar em si mesmo o erro,
de deixar se levar pelo vento,
ser marcado pra sempre com o ferro.
A carne queimada com o fogo,
a força que brota do ódio;
O mesmo que nasce do “quero”
impróprio pro tempo em que vive.
Coração estranho em corpo deitado.
Vê.
29/11/97

OSTRA

“Uma pérola para sempre”
e o grão de areia
deitado eternamente em berço esplêndido
iluminado ao som e à luz
do breu profundo;
Descansa em meu ser a pedra
fruto do que nos é imundo.
Você admira sua beleza
sem saber o interior do coração.
Eu sei o que gerou a dor;
Eu sei o que gerei, saber.
Eu sei o que geraste, amor.
Na inconsciência do mar,
nas pedras e recifes
falésias e placas submersas
conchas e objetos perdidos.
Incrustado no céu, o sol.
A lua desmedida
na balança se hesita, mede
a duplicidade da maravilhosa
biologia: gêmeos.
Superficiais, concisos e inteligentes
críticos e instáveis, farsas
cumplicidades e acusações.
Subindo e ascendendo ao céu
pelo caminho das horas.
Excitado pelo fogo
correndo pelos ares
procurando alívio aquático.
Faço pérolas e pérolas sem grão:
são maciças, e não falsas.
Você não percebe a diferença!
Às vezes nem eu distingo
o que há, mas há.
Não há pérolas falsas,
apenas origens não confiáveis.
O sal do mar era pouco ou demais
e não valia a pena provar.
Só eu sei o que ocorre aqui dentro.
Você vê pérolas
eu vejo lixo, ou natureza.
Uma forma de defesa
que não resiste ao bisturi
dos teus olhos de ostra.
Meu medo não faz mal,
me mostra teu sentir.
Só verei totalmente
quando também puder ser visto.
Vejo que sou ostra
– as folhas caem
nos mares lunares –
e que tu és ostra também.
14/05/97

OLHOS

Olhar. Sentir...
Buscar outro olhar em que possa refletir-se e perceber:
Olhares não envelhecem, apenas se aperfeiçoam.
O sorriso envelhece; os cabelos envelhecem; mas olhares não.
Os olhares sentem e revelam o que há por trás de si.
Percebem e são percebidos. Não querem dizer, mas buscam outro olhar.
Miram-se no espelho (profundo). E não retorna resposta, apenas perguntas.
Lançam no ar suas palavras silenciosas.
Com as quais sempre têm o quê aprender.

Se com o olhar se fere, com o olhar será ferido.
Feridas invisíveis, imperceptíveis. Que provocam dor maior que a física.
Olhares também curam. Encerram na íris o bálsamo e o vinho. A vida.
Olhos fechados também vivem. Talvez se escondam, querendo fugir.
Mas um dia se abrirão, para a vida, para o amor.
Olhos negros, castanhos, claros e incolores – olhos.
Janelas através das quais contemplamos o mundo.
Mesmo fechadas, sabemos que há luz lá fora.
Então as abrimos.

Lágrimas acontecem. De dor, de alegria.
Às vezes escapam, às vezes são arrancadas.
Mas sempre, lágrimas.
Lágrimas que ferem, que aproximam, que lavam a alma e o coração.
Não deixam rastro por onde passam.
Às vezes, o máximo que conseguem ou podem ser, é imperceptíveis.
Sempre acontece alguma coisa: o tempo, o espaço. Olhos.
Quando venta, se fecham – proteção. Fecham-se, quando da Morte.
Um dia, ainda se abrirão...
06/01/95

OLHAR, SONHAR

Feche os olhos e veja:
por sobre, o céu límpido...
e azul.
Olhe ao redor, até onde o olho pode sentir,
e veja o relvado do horizonte até seus pés...
verde.
Olhe para você, suas roupas...
brancas.
Olhe por trás e em baixo
e veja uma rosa...
vermelha.
No céu, o sol...
amarelo.
Não acorde de sua realidade.
Não deixe que te façam sonhar.
Você está sempre de 98 a 100.
Por favor: não abra os olhos.

VI VER D - Esperança?
VI --> VA!
10/01/95

domingo, 11 de janeiro de 2009

Silêncio:



Dor de dente.
Garganta.
Ouvido.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O VENTO E A ROSA


O vento traz a rosa.

Amei sem ser amado;
Amei e fui amado; e
Sem amar, me amaram.

Doeu, doeu e doeu.
Amor é dor,
correspondida ou não.
Se não for plantado a dois
perecerá,
como semente na penha.
Vento no deserto coração
traz a rosa e
a leva.
Felicidade passageira.
É, já te conheço, Amor...
Paixão, ou seja qual for
o teu nome.
Só não sei te evitar
ou controlar-te.
26/07/96

O QUE É E O QUE DEVERIA

Soluções prontas a gente não encontra no mercado pra comprar.
Não suporto mais viver uma vida escolhida pra mim,
com tantos ideais e sonhos lindos de se ver.
Todos dizem o que devo ou não fazer, como fazer, sobre coisas superficiais e aparentes;
enquanto no meu interior corrói-me a dúvida
e nem mesmo tenho com quem conversar.
O meu desabafo e sustento é devido àqueles maravilhosos comprimidinhos que me fazem adormecer e acordar sem sonho ou pesadelo toda santa noite e dia.
Sendo que se pudesse, me intoxicaria com apenas um tipo deles;
só que minha covardia sempre foi mais forte,
como quando tenho de tomar decisão sobre o que é mais importante
ou escolher arbitrariamente entre amputar a mão direita ou a esquerda.
Tudo só depende de mim, e eu só dependo dos outros para tudo.
Nos momentos mais cruciantes ninguém nunca tem algo a dizer.
O que falar a um canceroso terminal que vomita os próprios órgãos?
“Descansa em Paz”? “Levanta-te e anda”?
Para ser justa, a Justiça segue outra regra de conduta.
E não há sindicato ou defesa do consumidor que defenda causas movidas interiormente contra as mortes do que se chama de vida – biológica, social, espiritual.
Então eu morro, me transformo e renasço
a cada dia com o alvorecer, zênite e ocaso solar;
a cada mês com o ciclo de Lillith – lunar.
As minhas regras eu conheço bem, por tê-las legislado,
e executo meu pensamento sobre meu ambiente.
Ou seja: dou vida e morte a meus problemas e soluções,
porque tudo está onde deveria estar e onde eu coloquei:
estou no tempo certo e na casa que escolhi pra mim.
Sou o centro do universo que é Deus.
25/02/03

OI, EU ESQUECI TEU NOME

Parece que cada um está com medo de envolver o outro naquilo que pensa ser o maior problema do mundo: sua própria vida.
Quando no fundo, não há nada demais em viver, sentir os prazeres das sensações, emoções e sentimentos que nos proporciona.
Quando nos entregamos totalmente e sem restrições à vida e ao que ela nos oferece, é mais fácil superar a perda ou a falta, porque uma vez o presente foi verdadeiro e intenso.
Então não haverá a dor de um amor não realizado.
E ainda que seja pouco, a lembrança de um momento será eterna, imaculada, bela.
Aos corações que ainda não se encontraram pra valer mas que já se conhecem, devem jogar fora todo tipo de preconceito e auto defesa hostil; Revelar o que há de mais profundo em si é um ato de extrema coragem, principalmente se for para uma pessoa só de cada vez... Com a possibilidade de se fundir com ela.
Permitir que se demonstre carinho por você, ser capaz de receber e de dar afeto. Na justa medida que os dois necessitam ou que a situação permita.
O egoísmo não faz parte do dicionário amoroso. Não existe traição nem posse no verdadeiro amor. Mas sim uma escolha feita por pessoas: de amarem, serem amadas, de permitir ou não.
A única restrição sem prejuízos é aquela feita em sinceridade íntegra. Geralmente baseada em fatores que vão além do que se possa compreender racionalmente... (Já viu como a cadela no cio rejeita alguns machos?) Temos que amar a todos, desde que já façam parte da nossa escolha, da nossa vida.
Amar no sentido pleno e transcendente, muito além da palavra escrita ou falada mecanicamente.
Ao resto, que não se destina o Amor, resta a Amizade. Ambos tendo seus inúmeros graus.
Os graus em equilíbrio dinâmico, como nosso círculo vital.
Ame a todos, muito ou pouco, agora e em todo tempo.
E o medo de amar...
08/03/02

O CAMINHO DO RIO

Nasce,
Engatinha,
Anda,
Corre.

Por muitas águas é formado.
Não sabe de onde vem,
Nem para onde vai.
Torna-se parte de muitas coisas.
Segue apenas as Leis,
Sem saber ao menos que são Leis
A Gravidade e o Menor Esforço.

Por tudo atravessa, sendo
Modificador e modificado.

Algumas plantas cuja raiz é alimentada
Acariciam suavemente seu rosto com a folhagem:
O rio passa, e elas ficam;
As árvores passam, ele é eterno.

É composto pela mesma essência das nuvens do céu.
Reflete-as e assim cumpre sua missão na terra.

A chuva não atrapalha a calmaria de seu leito
Sua aparência plácida esconde turbilhonamento profundo

É suficiente em si mesmo.
O mar é seu
Princípio,
Fim e
Meio.
22/12/00

NEURO-PSICOSE

É uma loucura pensar
que há alguma coisa superior e
que há uns deuses lá em cima.
E é loucura não acreditar
no Deus de infindo e maravilhoso Amor.
Quem garante que não somos loucos?
Que eles não são loucos?
A razão não é loucura?
E a fé também não o é?
Prefiro ser normal
nesse mundo louco;
ser o santo no inferno
ou o demônio lá no céu.
Chamam a si mesmos de racionais
e me apelidam de animal.
Chegaram à Índia à toa e não é
que “América” a chamaram?
Os tolos “descobriram”, e
se apossaram do que já tinha dono.
Paraíso agora é inferno.
O tempo evolui pra trás
e o diabo agora é deus.
A verdade é mentira,
e a segunda continua
escrita nos muros dos livros
e nas páginas dos dias.
Meu amor se cristaliza
e não vejo bem através dele.
Não perco os loucos de vista:
são marionetes do céu (objetos,
defuntos, cavalos, cadáveres, e lobos).
10/01/97