terça-feira, 5 de maio de 2009

CAMUFLADO


O chão some dos meus pés.
Eu sumo de vista das pessoas.
A sombra e o escuro me encobrem
de noite e dia, lua a lua, sol.
Absorvo como esponja
a energia da morte que está no ar.
Vou me despojar dos esquemas
e sistemas.
Vou ser mais livre ainda para voar.
Nada sobrará dentro de mim.
Não acho ninguém onde deveria achar;
Sozinho canto querendo alguém,
escuto eco pensando em ninguém.
E viajo agora, sempre agora
sozinho agora e sempre.
(Nem eu me agüento. Quem agüentará?)
No tempo perfeito,
uma folha que roda.
É melhor rolar por baixo,
underground.
Joga-me na cruz,
condena-me,
mata-me com pedras,
se não tiveres culpa.
Também eu a tenho.
A morte eterna,
uma vida, uma ilusão.
O que rola nos esgotos.
Te ver me basta,
não quero mais que isto.
Uma mosca pousada em mim,
dois dedos e milhões:
Sensação de céu
no esgoto.
Só alimento minha ilusão,
minha vida, como moscas
em baixo tom.
(Não tenho garra.
Só tenho unhas, longas e curtas.)
20/12/96

CAMPO HARMÔNICO


Universo em harmonia.
Tudo em revolução elíptica
ao redor da cruz.
O príncipe cético;
O menino inocente.
Alguns atentos, outros indiferentes.
Não é possível achar o pecado.
Ele não está à órbita crucial,
ele mora lá dentro.
Do príncipe,
do menino,
d’alguns e d’outros.
Dentro da própria cruz.
Sangue versus glória.
A glória por fora.
Pecado navegando em glória.
Estrelas ou sóis conjugados.
Corpos pessoais no plano.
Afirmação e negação simultâneas,
de verdades e mentiras absolutas.
A razão do irracional, e o ele dela.
Luzes e lentes no buraco negro.
Espaço – Tempo – Limite.
Onisciência – Onipresença – Onipotência.
08/05/96

CAREZ


Como é bom alimentar
uma coisa, uma esperança nova.
Coisas velhas ficam para trás
e tudo se faz novo.
Ela me remete a, simultaneamente,
passado, presente e futuro.
O prazer chega perto
do horizonte distante,
que eu não podia ver,
agora perto de mim.
Tudo começa no fim do tempo.
Obrigando a desfrutar o máximo
do tudo no resto que sobra
do crepúsculo:
nem dia (trabalho)
nem noite (descanso).
E não há meio termo.
06/08/96

CARNAVAL


E então, o que me trazes de bom?
A tua alegria é porca:
força o riso e
rola a lágrima.
- Todas as emoções são quentes...
Até mesmo essa
sensualidade banal
com movimentos hipócritas.
A loucura coletiva cega:
ao povo, pão e circo,
a religião e o ópio!
Mas...
De repente, alguém vai embora
(deve ter consciência ou serviço pra amanhã)
a música pára
a chuva aumenta
a cerveja acaba.
Os bandos se dissolvem em outros
agora, caravanas.
Porque andar só à noite é risco.
As brincadeiras deram lugar ao medo
ainda fantasiado.
Porém não entendi
porque fiquei na rua até tarde
se estava deprimido e excitado...
Agitado, melhor dizendo.
Nunca entraste em crise?
Não te cansas dessa vida?
De serdes atraído pelos corpos
como joguete, de um lado para o outro
sem que a razão possa funcionar,
impor limites ou padrões?
Os olhos não se fartam de pedir mais
mas devo ter repelente no corpo...
Muita dor no coração.
É difícil lidar com o ser humano
no campo amoroso ou
amigo-romântico.
Todos são carentes,
mas não querem estragar a festa.
É triste sentir a inveja
da tua não ser a minha história.
Sonhei, mas não aconteceu
e dói no fundo do meu ventre
o que eu queria e que não aconteceu.

Se talvez alguém estivesse presente
eu talvez não estaria aqui ou seria assim.
Se talvez alguém estivesse ausente
eu talvez não teria permitido que
no meu coração brotasse a flor.
Se alguém talvez colhesse a flor
talvez meu coração não seria dois.

Meu ódio: meu amor: meu poder: meu prazer
(dor: embora qualquer permuta seja verdadeira).
Meu prazer: meu poder: meu amor: meu ódio.

Quando foi tempo de chorar
minhas lágrimas não estavam prontas
e o coração chorou sozinho.
São Pedro se comoveu
e pediu pra São João chorar também
pra consolar seu filho,
pra lavar-lhe a alma e os cabelos.
Deu-lhe das asas os anjos
e aconchegou-o a si.
A chuva estragou minha fantasia de felicidade
dos meus cabelos.
E vi que não sabias também
passar maquiagem.
Te deixei seguir teu rasto na lama
e acompanhei a andorinha
pelo céu (agora sem confetes e serpentinas)
até aquela linda luz violeta.
24/02/98

CONFIDENTE


A sua filha está linda:
a sobrancelha parece com a sua.
A sua lágrima eu segurei
e foi embora.
Eu queria ser pai,
eu quero menino.
Seu coração anda cansado.
Seu amor vai cada vez mais ocupado.
Sua jornada não é distraída.
É tudo (que muda) sempre igual.
Sóbrio eu vi
vazio na escuridão
da sombra que corre à minha frente,
na sombra que galopa por trás:
Não era ninguém
além de minha imaginação
querendo que você voltasse pra mim
(Ladrão não volta onde não houve crime).
É melhor ser caça que caçador
mas eu esqueço...
Sou discrepante a contra gosto.
Fico contrariado
quando os ventos não trazem notícias de longe.
E você me pergunta:
“- Você me ama?”
- Que é o amor?
Se ao menos eu ficasse
calmo, sereno e tranqüilo...
Só que é tudo sempre igual,
sempre aprendendo a mesma coisa:
não olhar,
ficar no tempo.
Contar a uma pomba
meus segredos sobre
Simetria Proporção Vitalidade e Força
Ritmo Tamanho e Acessórios
Beleza e Saúde
Perfeição

Entretanto, suas asas querem outros ares.
27/02/98