O chão some dos meus pés.Eu sumo de vista das pessoas.A sombra e o escuro me encobremde noite e dia, lua a lua, sol.Absorvo como esponjaa energia da morte que está no ar.Vou me despojar dos esquemase sistemas.Vou ser mais livre ainda para voar.Nada sobrará dentro de mim.Não acho ninguém onde deveria achar;Sozinho canto querendo alguém,escuto eco pensando em ninguém.E viajo agora, sempre agorasozinho agora e sempre.(Nem eu me agüento. Quem agüentará?)No tempo perfeito,uma folha que roda.É melhor rolar por baixo,underground.Joga-me na cruz,condena-me,mata-me com pedras,se não tiveres culpa.Também eu a tenho.A morte eterna,uma vida, uma ilusão.O que rola nos esgotos.Te ver me basta,não quero mais que isto.Uma mosca pousada em mim,dois dedos e milhões:Sensação de céuno esgoto.Só alimento minha ilusão,minha vida, como moscasem baixo tom.(Não tenho garra.Só tenho unhas, longas e curtas.)20/12/96
Universo em harmonia.Tudo em revolução elípticaao redor da cruz.O príncipe cético;O menino inocente.Alguns atentos, outros indiferentes.Não é possível achar o pecado.Ele não está à órbita crucial,ele mora lá dentro.Do príncipe,do menino,d’alguns e d’outros.Dentro da própria cruz.Sangue versus glória.A glória por fora.Pecado navegando em glória.Estrelas ou sóis conjugados.Corpos pessoais no plano.Afirmação e negação simultâneas,de verdades e mentiras absolutas.A razão do irracional, e o ele dela.Luzes e lentes no buraco negro.Espaço – Tempo – Limite.Onisciência – Onipresença – Onipotência.08/05/96
Como é bom alimentaruma coisa, uma esperança nova.Coisas velhas ficam para tráse tudo se faz novo.Ela me remete a, simultaneamente,passado, presente e futuro.O prazer chega pertodo horizonte distante,que eu não podia ver,agora perto de mim.Tudo começa no fim do tempo.Obrigando a desfrutar o máximodo tudo no resto que sobrado crepúsculo:nem dia (trabalho)nem noite (descanso).E não há meio termo.06/08/96
E então, o que me trazes de bom?A tua alegria é porca:força o riso erola a lágrima.- Todas as emoções são quentes...Até mesmo essasensualidade banalcom movimentos hipócritas.A loucura coletiva cega:ao povo, pão e circo,a religião e o ópio!Mas...De repente, alguém vai embora(deve ter consciência ou serviço pra amanhã)a música páraa chuva aumentaa cerveja acaba.Os bandos se dissolvem em outrosagora, caravanas.Porque andar só à noite é risco.As brincadeiras deram lugar ao medoainda fantasiado.Porém não entendiporque fiquei na rua até tardese estava deprimido e excitado...Agitado, melhor dizendo.Nunca entraste em crise?Não te cansas dessa vida?De serdes atraído pelos corposcomo joguete, de um lado para o outrosem que a razão possa funcionar,impor limites ou padrões?Os olhos não se fartam de pedir maismas devo ter repelente no corpo...Muita dor no coração.É difícil lidar com o ser humanono campo amoroso ouamigo-romântico.Todos são carentes,mas não querem estragar a festa.É triste sentir a invejada tua não ser a minha história.Sonhei, mas não aconteceue dói no fundo do meu ventreo que eu queria e que não aconteceu.Se talvez alguém estivesse presenteeu talvez não estaria aqui ou seria assim.Se talvez alguém estivesse ausenteeu talvez não teria permitido queno meu coração brotasse a flor.Se alguém talvez colhesse a flortalvez meu coração não seria dois.Meu ódio: meu amor: meu poder: meu prazer(dor: embora qualquer permuta seja verdadeira).Meu prazer: meu poder: meu amor: meu ódio.Quando foi tempo de chorarminhas lágrimas não estavam prontase o coração chorou sozinho.São Pedro se comoveue pediu pra São João chorar tambémpra consolar seu filho,pra lavar-lhe a alma e os cabelos.Deu-lhe das asas os anjose aconchegou-o a si.A chuva estragou minha fantasia de felicidadedos meus cabelos.E vi que não sabias também passar maquiagem.Te deixei seguir teu rasto na lamae acompanhei a andorinhapelo céu (agora sem confetes e serpentinas)até aquela linda luz violeta.24/02/98
A sua filha está linda:a sobrancelha parece com a sua.A sua lágrima eu segureie foi embora.Eu queria ser pai,eu quero menino.Seu coração anda cansado.Seu amor vai cada vez mais ocupado.Sua jornada não é distraída.É tudo (que muda) sempre igual.Sóbrio eu vivazio na escuridãoda sombra que corre à minha frente,na sombra que galopa por trás:Não era ninguémalém de minha imaginaçãoquerendo que você voltasse pra mim(Ladrão não volta onde não houve crime).É melhor ser caça que caçadormas eu esqueço...Sou discrepante a contra gosto.Fico contrariadoquando os ventos não trazem notícias de longe.E você me pergunta:“- Você me ama?”- Que é o amor?Se ao menos eu ficassecalmo, sereno e tranqüilo...Só que é tudo sempre igual,sempre aprendendo a mesma coisa:não olhar,ficar no tempo.Contar a uma pombameus segredos sobreSimetria Proporção Vitalidade e ForçaRitmo Tamanho e AcessóriosBeleza e SaúdePerfeiçãoEntretanto, suas asas querem outros ares.27/02/98