Estou trocando os dias pelas noites,
pelo menos no fim.
Mas não acho o teu semblante
nem nada do tudo que eu quis.
Amanhece e tudo está perdido:
pelo menos sei aonde estou,
para onde eu tenho que ir.
Estou sozinho
e não há nada de novo nisso.
Estou perdido
mas no caminho achei o meu espírito.
Sem a Estrela,
o meu preciso não é preciso.
Vira desejo ardente, como à meia noite.
Mas de perto
bem lá dentro do que chamo coração
existe aquilo que dói,
o vazio tamanho
que nem o mundo o preencher
seria capaz.
Seria capaz
de amar mais outro nome de
mais outra alma aprisionada
num outro corpo mais?
Se o amor me fizesse saber
O que é não solidão...
Eu miraria nos teus olhos
e não precisaria de explicação.
Meu desejo
me mata e alimenta
sempre à noite
porque o ocaso é depressão.
Quando o sol se vai
minha alma voa leve
e leva meu corpo.
Cheguei cedo demais pra escuridão.
Não me olhes,
eu vou com frutos
e me trazes sementes.
Reconheço o teu olhar.
Todos dentro aqui estão.
Não machuca, não condena
Porque também podes sentir.
A lágrima corre aqui por dentro.
Eu sinto a tua falta...
Eu sinto a falta...
Eu sinto falta...
Eu sinto...
Falta...
13/10/97
A música que ouço agora
não foi tu quem tocaste.
Lembro de tua voz
projetada para o espaço vazio
atrás de mim por teus olhos.
A emoção que tenho é minha
e única por cada pessoa.
É uma pena tu não sentires o mesmo
(ou deixardes de mostrar o que sentiste
pois o teu medo bobo
só te afasta do teu íntimo).
Não precisei mentir
e por isso hoje
tenho na boca o sangue
de uma ferida limpa
em teu pescoço lindo;
Enquanto teus dentes degustam
purulento sangue venoso
proveniente de meu seio.
Eu sei que toda a intensidade
do amor, da dor e do ódio que sinto agora
vai sedimentar-se em algum lugar
bem no fundo do meu coração
e que toda vez que te vir
renascerá das cinzas
a eterna afeição
que sempre tive por pessoas
que fazem parte de mim.
Mas não leia meu lamento,
e não me ouça.
Pois as únicas coisas que
quero ser lembrado por você
é que um dia nossos olhos sorriram.
06/05/01
nasce da rocha a água
anda entre as folhas
e reúne-se com outras águas
de outras fontes
que de calmas caudalosas formam
um ribeirão acontece
e contorna obstáculos
vence por cima ou por baixo
contorna e forma curvas
meandros largos e
calmos, navegáveis
sua superfície oculta
a guerra do leito em se preservar
água lava e leva tudo
quase tudo é limpo
e num ponto importante
o rio faz a ponte, conexão
e noutro faz a distância
a separação.
o rio é resistente em se deixar ferir
e flui ao lesar o leito
o barco sofre a repulsa
da água e a fere.
a corrente de energia do
rio impele o barco, desvia-o de seu objetivo.
mas quando chega-se
ao outro lado, à margem,
o barco não sabe por qual
caminho passou
e o rio sente saudade
da dor.
têm dificuldade de partir para
caminhar e de chegar de
caminhar
o rio não permite que faça
parte de sua vida
e sustenta a vida do
barco por sentir-se só
em meio a tanta vida.
quando deságua no mar
gostaria de estar mais rico
compartilhando suas águas
com a maior quantidade
de seres possível.
12/12/02
Pode a mesma fonte
jorrar água doce e amarga?
Há quem goste do salgado
como existe preferência pelo melado.
Enquanto dois podem discordar do sabor
da mesma laranja ao chupá-la.
Que importa, se ainda é laranja?
Quando pus seu véu vermelho
(sangue inocente tintura)
pude ver que eras cego
conduzindo-me para atravessar a rua.
A hipocrisia é um ranço
aderente ao envelhecimento -
nada continua como sempre foi
e todos agem como tal.
Pensam em seus corações
venenos para suicidar outros,
seus dentes brancos revelam
que tingimento bem feito não desbota.
É o triunfo das mentes pequenas
sobre a Mente que tudo pode.
A coletividade que implica solidão.
Meus olhos que queimam como o gelo.
13/06/02
Faz bem ao meu coração
Dizer que estou amando.
Mas a mentira
da tua presença
deu-me rasteira, coração ausente;
Vazio do que efetivamente preenche.
A noite olhou-me
alta e cheia: clara e úmida,
testemunha e só isso,
embora eu precisasse de mais.
Preciso não deixar
apagar a chama do fogo
sagrado no meu coração
(se ainda estiver por lá...).
Há tanto tempo não uso
que aranhas habitam.
Ele está lá, tímido e quieto,
mas vivo.
Olhando e às vezes ventando
as cinzas; puro olhos e ouvidos
aromas, e sabores.
Não senti a tua pele por mim,
teus olhos sobre mim
no escuro sob tuas mãos,
nossas bocas bebendo lágrimas
doces de fontes amargas.
Acorda! O sino da igreja diz
que o sol vai alto e como a lua
teu cheiro foi embora
deixando-me mercúrio nas mãos.
11/09/03