segunda-feira, 16 de março de 2009

A MEMÓRIA DE PELE NA PELE:


Não me faça, não me deixe chorar;
Não me olhe, não vá longe de mim;
Não me toque, não se oponha a isso.
A surpresa é o que perpetuou-se
no tempo.
O milagre é o que ocorreu
paulatinamente.
Qualquer um que passe,
tem o seu lugar.
Ou você ama a todos, ou ninguém.
Não vejo o porquê dessa sua distinção,
do seu preconceito, da sua discriminação.
Pouco importa ou deveria
se estive com um amigo ontem
- quem dera tivesse amigos
como você.
Pensei que tudo fosse igual, afinal,
todos são iguais perante Deus...
É, é que esqueci que não sou Deus.
Não diga nunca, porque o
pra sempre acaba.
O ser humano tem limites.
Tudo vira dúvida
quando você pergunta.
Me acostumei a ter respostas
para tudo que hoje questiono
como o que foi pergunta ontem.
Não sei de palavras bonitas e
pior é não acreditar em milagres
(é o vício!).
Um menino fez o sinal da cruz
com os dedos em figuinha
quando viu a estrela branca
rasgando o céu com a cauda de fumaça
e lampejos vermelhos.
Tomara não fique com a infância incompleta,
com o coração vazio
e não simplifique suas necessidades básicas
em sexo, quando for crescido.
Os dedos esquecem
que um dia tocaram em corpos
e que foram felizes.
Não me mostre seu corpo;
Não me provoque;
Não me faça chorar.
14/03/98

A MÃO


A mão aberta, estendida, o dedinho levantado;
É quase isso, está quase certo.

O peito nu não mente, o coração está descoberto.
A harmonia simples suspensa no ar parado
Traduz o sentimento, as sensações,
O que eu queria, e não acontece, e não se foi.

Emoções (não) são mais simples do que lágrimas,

Teorias ou fórmulas mágicas.
Não posso perder meu tempo, que a vida é curta.
A outra vida, a morte, o meu ouvido escuta.

Aquilo que se vê como luz é ceifado cedo.
Não quero conhecer o sucesso. Eu tenho medo.

Minha mão está aberta e você pode perceber.
Eu sou simples, a sociedade que complica.
Se você quisesse o mesmo, eu poderia lhe fazer feliz.
12/10/96

A MÁ


É como o cheiro do perfume que realça
no dia seguinte, após o banho
que tira o suor, desimpedindo a fragrância.
Coração acelerado,
gosto de carne viva nos lábios:
fui aceito moralmente na sociedade vampírica.
Meus olhos pesados colocam meus pés sobre
as nuvens,
minha capa preta-vinho.
Meu corpo está todo dolorido
- quase não parei de buscar
a essência da sua vida
a noite toda nos trilhos da meia noite.
Sina a esmo no mato deserto
contra a luz que vinha de longe ferindo
meus olhos e ouvidos bem abertos.
A boca apertada sentindo
o gosto de sangue nos lábios.
A língua morta na boca,
as pernas se transformando em cauda,
os braços transmutando a asas
num desvairo de sempre aceitar mais
e sempre, diferentes coisas.
Seu olhar confunde o meu.
Não tenho demônio de adivinhação:
tenho o dom de discerni-los, Espíritos.
Mas quando eu dominá-lo
vou ter que escrever com o sangue
(que sobe ácido, doce e rápido
para descer aço morno, pasto)
o licor do seu beijo.
Com Poder transfigurei,
num vôo rasante nos encontrei
e bebi sua vida seu sangue.
Seu órgão me serviu apenas porque
eu sei quem eu sou, você não.
25/05/98