E agora, o que vou fazer?
Faz tempo que não lhe vejo.
Os olhos parecem distantes.
O desencontro tomou conta.
O meu coração dói.
E não quero chorar.
Se você não quer me ver,
se esconda dos meus olhos.
Você passa por mim e nem me vê.
Quando passo finjo do mesmo jeito.
Mas nada acaba
com essa dor de desejar.
E nem na Rua da Amargura
consigo vender meu corpo.
Minha tristeza é tanta
que se transforma em ódio
irradiante pelos olhos que desejam
mercadorias na vitrine sem compromisso.
Não se faça de inocente
já lhe envolvi com o mal.
O seu corpo é a isca,
sou eu quem puxa o anzol;
A linha arrebenta...
Ventando vai o meu cabelo
o meu beijo e o meu veneno.
Doce e gostoso como pudim de leite
condensado nas sombras,
oculto da luz.
É o nosso suco gástrico.
É bom
e faz tão mal.
Por que não se pode estar sozinho?
Pra quê olhar aos quatro ventos?
A maquiagem que faz o olho forte
vai borrar.
E a minha loucura não chega.
Não tenho stress.
Eu durmo de dia.
A minha dor é branca.
Eu posso prosseguir;
Não me incomoda não.
Os velhos sacerdotes meninos, a santíssima trindade,
estão morrendo.
Eu me preparo para atravessar o Tempo
(Sou muito amargo pra durar demais).
A Morte vai chegando mais cedo
porque o tempo se abrevia.
A vida mais precoce e mais intensa.
Fiquei maduro
antes de saber que era fruto.
A casca horrorosa
disfarça o que há por dentro.
Mas não precisa disfarce:
o que você pensa que é doce,
é um mau pedaço.
De longe eu vi.
07/08/97
Sonhando com o inferno sedutor no inverno.
O diabo num corpo feminino
como Dalila ou Cleópatra
se aproximando de meu corpo
para roubá-lo, matá-lo e destruí-lo.
Eu farei isso antes dele:
Eva não pôde resistí-lo,
como eu poderia?
Tampouco tenho, como ela não tem culpa.
Mas esse sonho não termina:
sou eu sonhando que eu sou.
Bem de manhã, deitado ainda
você me acusa.
Não fale mais nada, não me abuse.
Você está morto, leve seu espírito embora.
Meu corpo fraco tem dificuldade em se levantar.
Me carregue para as estrelas
para onde você disse que foi.
Aonde crescem as douradas rosas
de olhos negros,
que dependem de seus finos pêlos
para copular.
Seus finos e abundantes pêlos e cabelos
me seguram, eu pulo o muro,
para a livre eternidade
que azul procuro.
25/06/97
Encontrei-a num prostíbulo em meio à rua.
Vestia roupas comuns como as minhas.
E eu olhava ela como ela olhava eu.
Naquela linguagem sem palavras eu pedi
mas ela não se ligou.
Encontrei cegamente o seu corpo
surpreso por parecer inerte.
Tentei provocá-la em vão.
Não me contentei em beber o corpo
passivo entregue como objeto
inócuo ao calor meu.
Nossas almas partidas
projetam luz e sombra
sobre a outra parte
(um amigo me ensinou que quando eu pudesse pagar, pagaria:
são as duas molas que movem o mundo.)
Envolvi-a, mas não foi envolvida.
Suspeitei desde o início
que era uma questão de quem tem mais
cedendo a quem tem menos.
Não me siga pelos cantos
minhas mãos esquecerão rapidamente seu corpo -
minha boca não.
Não grite meus nomes pela rua,
não pergunte por mim.
Serei apenas seu provedor, usuário de seus favores.
(Já andava meio esquecido
de que em meu coração podia pousar o ciúme.)
Mito contra mito: estamos vivendo o princípio do caos
dentro de nós.
11/03/03
Que bom que você finge que não sabe
que eu finjo que não sinto nada
quando na verdade
o meu desejo e minha paixão
chegam quase a me sufocar
para lhe sufocar
e provavelmente matar a amizade.
Mas você sabe cobrir seu corpo
para me deixar de água na boca
e de mãos amarradas.
Dorme em paz, não vou lhe perturbar.
Eu deveria ter ficado quieto
e do seu lado, quando pude.
Mas eu sempre quero mais.
Sempre digo a mesma coisa
e não observei o meu limite.
Eu não conhecia limites
e fui além da conta.
Você ainda está no fundo da minha garganta,
não consegui engolir.
Mirei no poste e
acertei o fio.
Não me arrependo do que fiz
nem do escuro de minhas lembranças.
Alguma coisa aconteceu, eu sei.
Me explica
porque nada será como antes:
ou estaremos mais próximos
ou você vai ter raiva
ou você quer algo mais
ou não houve nada.
A sua mão na minha,
a minha no seu corpo,
minha boca em você,
eu sozinho em casa.
Não mendigo corpos, afeto ou amor
mendigo almas.
Não sei o que pensar nem o que sentir.
Quero o passado onde está
mas de vez em quando meus sentidos
me lembram-lhe.
Abandonei a razão
e não devo ter falado nada que prestasse
Agora quero adiar a conversa
E me preparar melhor
para estar perto diariamente -
conviver é mais difícil
pois não conheço seu coração.
Não me leva embora que,
como sempre, não quero ir.
Não fala nada,
O seu sorriso é bem mais bonito -
e a força o sustenta.
Não sei como continuar, mas:
ou lhe engulo
ou vomito.
E você, a mim.
12/07/97
De tudo que chegou no tempo
você não mais sintetiza tudo em si:
Tirou essa carga de cima dos seus ombros,
e redirecionei o que você ajuntou.
Quando eu enveredaria pelas ilusões
você me tirou de cabeça
e aprendi a separar e conviver.
Eu mal sabia que foi você
quem não se conteve
depois de ter guilhotinado meu sonho.
Você falou para que eu não me apaixonasse,
para que não me envolvesse,
que seria só por uma noite.
Falava que eu não conseguia ficar longe
e que sentiria a sua falta.
No entanto, no meio de tudo isso,
eu estava, estou tranqüilo.
Nunca pude enxergar através
dos seus vidros.
Mas nos últimos dias percebi
que você falava mais era para
tentar se convencer daquilo.
Eu já tinha plena consciência de tudo.
Você matou meu sonho a tiros
e não venha agora picotá-lo
que gosto de enterrar meus corpos inteiros,
vivos, intactos.
Talvez você realmente me entenda,
mas sua essência ainda é bruta.
Eu olho os corpos, não buscando carne,
mas alma viva, acesa.
Só aprecio a embalagem,
quero mesmo é o produto.
Seus beijos estão reservados
para alguém mais digno que eu?
Sim, você reservou-os.
E no seu íntimo me repudia,
se enoja comigo, você goza.
Sentimos nossas forças e fraquezas.
Não adianta eu falar que sou diferente.
Você sabe e vai saber com o tempo.
Você pensa que sabe
e vou aprender muito consigo.
Tira o seu cheiro fedido de mim
já que não quer me beijar.
Até que tenho domínio de mim.
Um pouco de medo, mas sou assim.
Cuide-se, ou você termina deitado
no sangue de uma colcha
sobre uma cama morta, vazia,
num quarto preto, mal iluminado
pelo vitral vermelho
e pelo lustre sangue de cristal,
a fumaça de cigarro no ar.
Talvez eu esteja doente.
O diagnóstico do meu Médico
chegou bastante atrasado.
Agora eu sei que é tarde,
não há nada mais que fazer contra a morte,
é só vivê-la a cada dia
degustando o fel das companhias
uma por uma.
13/03/97
- Quero; Não me dê.
- Me abraça; Me deixa só.
- Me consola; Não me ligue.
- Quero; Não quero.
- Me abraça; Solidão.
- Me consola; Vá embora.
Sentimentos x Sentimentos -
identicamente diferentes:
- Tenho e não desfruto.
- Tenho e não é meu.
Faço barreiras indesejáveis,
protegendo de mim o que eu quero.
Meu ser (não ser?).
Me aprisiono e torturo-me dentro de mim (eu?),
uma masmorra sem fim,
a verdadeira indústria do terror.
Minha força me abandonou e
carregou um pedaço de mim.
- Quero e não posso.
- Vejo e não alcanço.
Você.
19/10/94
“Preserve as águas do nosso planeta:
lágrima é vida.”
Pelo olho do céu
segundos e milênios escoam
em contagem regressiva
para Tanatos reinar.
Afrodite me parece Hera;
Como Ícaro fui alto e rápido demais
em direção ao ouro de Apolo.
Deitei sem Eros,
Hipnos arrancou-me os dentes.
Hefesto e Vênus de mãos dadas
sopram Hermes para trás
e Zeus não faz nada.
Devia celebrar minha morte
a cada segundo
mas sofro por antecipação:
erro com meus erros
misturo as bolas e
me perco, me aniquilo.
E como se não estivesse aqui
te olho e não te vejo
te sinto e não percebo.
“O Prestidigitador terá o tesouro
quando encontrar-se com o Louco.”
17/09/03
Vi na TV a prisão
de um adolescente líder de rebelião na FEBEM,
e as regalias que o criminoso mais perigoso recebia numa cadeia de luxo porque ninguém tem coragem de pôr a mão nele.
Advogados de defesa nadando em rios sujos de dinheiro
para fazer com que a lei seja aplicada conforme a lente deles.
Li numa revista sobre a ênfase nas ações
e nas atitudes do ser humano
para que um dia ainda haja futuro.
No meu interior minhas duas almas revolveram-se:
a boa esforçando-se para subir,
e a má cavando mais fundo.
Eu poderia ter sido aquele marginal
sem nenhuma sombra de dúvida.
Mas será que tivemos escolha?
Se temos, como saberíamos que este é o melhor presente?
Minha filosofia nunca me levou a lugar algum;
minhas atitudes sim.
18/04/03
Hoje o dia tem nuvens
como as que molharam a Terra ontem,
e que me trazem a lembrança
de outros verões
de outros finais de ano:
- numa fazenda;
- os livros de um mago
E o medo, a vida, humano;
- crise do por quê
e o Amor;
- a exploração a frustração a decepção.
Não adianta chorar, fugir ou morrer.
Não há como dar paz ao coração.
Não há como viver e ser feliz.
O sol não está brilhando no céu.
Minha neblina não se desfez.
Sou um escravo da Aparência.
Detesto e amo os corpos.
A primeira regra não consegui cumprir:
“Ame-se mais do que tudo.”
Não quero existir dentro de mim.
Acho que vou deprimir.
26/09/97
Quatro lágrimas congeladas,
paradas no tempo, paradas.
De distintas formas originadas,
um só jeito pra escapar.
Mas não, estou cansado de fugir,
para mim não dá mais:
tenho que chorar.
Lágrima por mim: Solidão.
Lágrima de mim: Amor.
Lágrima por ti: Espaço.
Lágrima de ti: Tempo.
Quatro lágrimas lavradas na cruz.
Nunca mais serei o mesmo:
O tempo acabou debaixo do céu infinito.
O corpo morreu, o sangue fluindo.
Estou só.
Longe agora.
Dormir só, descobri que é ruim.
E no canto da cama chorei só.
Rolei no colchão e sonhei (com o que não quis,)
algo inesperado;
Como chuva à tarde
sem nuvens no céu e
com o sol no crepúsculo horizonte;
Sem cor, não deu pra entender
aquela doçura imprópria...
‘Tá explicado: foi um sonho
na noite interrompida e fria.
Mais que quatro lágrimas experientes rolaram;
Dos meus olhos inexperientes
correm pétalas róseas, (flores).
Papel de flores na parede.
O resto do ano, o fogo queimou.
29/11/96
Pensei que minhas mãos eram frias,
até que encontrei as mãos da Morte.
Então olhei sua face e perdi o medo
porque ela tinha o rosto da Paixão;
Anéis de prata nos dedos,
ouro na boca,
e um toque suave
das unhas em ferpas
pintadas e limpas.
Não é por descuido
que seu rosto está sujo:
é para você se distrair ao limpá-lo
durante o encontro
e não sentir o impacto
de ser só energia.
Eu deixei o dinheiro debaixo do travesseiro.
Você não entende nada de amor.
O seu corpo é mais vistoso que o meu,
apenas, e isso conta.
O que você tem por apenas uma noite
posso ter durante a eternidade.
Porque está ansioso?
Quero andar no território sagrado.
Você permite o toque da minha mão?
Quero sentir o seu rosto,
a carne e a pele do seu corpo.
Quero saber o que você pensa
quando pego sua mão.
Posso sacudir o preconceito
dos seus ombros?
Meu amor é quase bem maior:
ou você ama a todos
ou não ama nenhum.
Mas eu não falo que amo.
Eu ofereço prendas de amor;
Confissões de amor
dos meus olhos
para o seu corpo justo.
Não para o seu interesse
vulgar e passageiro.
Estamos brincando na frente do espelho
nus e nos relacionando
à meia luz e meia voz.
Nossos corpos sujos se contaminaram.
Admiro apenas a beleza
dessa cruz sobre seu peito imundo.
02/08/97
Agora eu sei o que é estar no ventre de um grande peixe;
Sentir todo o ser abraçado completamente pelas entranhas frias e úmidas;
Ser levado aonde não quero para fazer a minha não-vontade.
Todas as lágrimas são literalmente engolidas quando ninguém pode ver seu interior.
O aperto vem de dentro pra fora; o enjôo, de fora pra dentro.
A movimentação em círculo imita uma espiral descendente até a praia.
Regime de bílis e ácido gastronômicos
Para nutrir o corpo subdesenvolvido e fraco
Com idéias tão fortes quanto, e internas como.
É o bolo alimentar espremido até não mais poder e
Se desfaz;
Deixando-se absorver, perde a identidade. Não!
Doa sua essência para a vida:
Morre para si à proporção que outros vivem dele.
Como um cabrito (branco e sem defeito, digo, perfeito) caminhou ao matadouro mudo,
E desistiu de seus planos de vida egoístas e cheios de sonho
Por uma existência cinza e altruísta.
Isso é um tipo de amor:
Anular-se para que o outro possa sentir-se bem;
Perder a sua felicidade
Para que o outro seja feliz.
Os deuses têm sempre razão,
O erro está com o homem.
Mas se eles foram feitos à imagem deste,
Abra a mente e entenda a maioridade do todo sobre a soma das partes;
Infinitamente mais.
22/01/01