quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

AMOR ILUSÃO


Sinto dor.
Você conhece a dor.
Não a minha, mas a sua.
Todos temos dor.
Não existe dor maior
que a distinção de dores.
Preste atenção à sua dor
e pare de soprar no meu inferno.
É difícil crer
que você também dói -
que o outro também dói -
que o próximo também dói.
A própria dor parece única
e maior que as outras,
que aos próprios olhos
são mais fáceis de parar de doer.
(Simplifica-se a dor alheia.)
Vistos de dentro os erros
parecem maiores.
Talvez você não preste atenção
àquilo que não me escapa.
Meu valor é mínimo;
bem do tamanho do seu:
mínimos, mínimos, mínimos.
23/05/97

AMARGOR

Fabriquei meu mais novo instrumento de dor:
um punhal de dois gumes
irregular como uma labareda.
As pessoas acham lindo
o meu sofrimento;
não é por mal, eu sei.

Você me deixa à beira do abismo
do precipício da loucura.
Por que você me mata assim?
A sua inocência é má
e não sei se devo fazer alguma coisa.
Faz muito tempo
mas não lhe conheço bem
a ponto de saber do seu desejo.
Não me mostre o seu peito
nem suas costas
nem suas pernas.
Só quero ver
o que eu puder tocar
e possuir por um instante
de eternidade.
Não quero mais nada
que a sua intimidade.

Lhe esperei ansiosamente
esta tarde.
Suas palavras de ânimo
fazem bem.
Mas me recuso a
enxergar o que li
no fundo dos seus olhos.
Prefiro pensar que você não
sabe interpretar o meu olhar,
e que os seus motivos
e / ou interesses
não são os mesmos que os meus.
De qualquer forma,
já estou sofrendo.
14/09/97