terça-feira, 20 de janeiro de 2009

17H15


Conversa telefônica:
Eu: - Boa tarde. Estava com saudade de ouvir tua voz.
Voz: - Ah...
Eu: - O que foi?
Voz: - É que eu tinha um monte de coisas a fazer... conversamos depois.
Eu: - Amanhã, no almoço. Não. À tarde. Tchau...

Acho que não sabias o que estavas fazendo
quando tu me matastes.
Eu só queria um pouco de atenção.
Eu poderia ter a atenção de qualquer um,
mas quando te chamei,
Eu queria era a tua
- migalha.
A carência mais profunda
gera o ódio mais arrogante
quando não é atendida.
Eu só queria comungar um pouco de algo contigo;
Mas vejo agora que tu não me queres.
Eu podia te amar,
e agora vou te ensinar a lição que pediste.
Posso ser muito mais indiferente que tu,
e o meu coração já planejou e executou
a tua morte.
A sorte foi que não podias ver meus olhos;
A tua sorte foi que tu não podias ver os meus olhos.
Eles exalam lágrimas
que dizem da dor de ser descartado.
Sorte tua não conhecê-la.
A minha dúvida
é saber o que fazer com todo amor que te dediquei.
Não apertarei meu coração
para que não me escape por entre os dedos
Eu sei que o melhor
é simplesmente deixá-lo livre
para amar e odiar.
Eu e Tu.
07/08/97

VIVA CHUVA

Vento, brisa, redemoinho, furacão, mais
água, rio, mar, vapor, igual a
tormenta, temporal, tempestade, chuva.
Guerras, tribulações, lutas.
Tudo isso me atinge
aos poucos, na medida em que
se torna minha luta interior:
o dia contra a noite,
06h x 18h,
consciência versus desejo.
Só escrevo quando estou na fossa
- por favor, não me jogue uma corda -
com exceções.
Vivo num deserto de delícias
por onde ando correndo
rápido
pelas duas estações,
o Enterro do Verão e
a Festa do Inverno,
estados de inferno
com meus anjos e demônios
que criei ao meu redor.
Não há paz e vida:
vida é guerra,
paz, só com morte.
Guerra da
rotina contra aventura.
Atraem nuvens.
Nuvens negras que não indicam
tribulação, mas bênção
de chuva.
Ela deixa irreconhecível, gasto
algo que se deixe,
palavras.
E é mais poderosa
que o sol, calor, luz:
ele custa a secar
o que ela molhou já,
terra.
Ela molesta e abusa
de todos.
A gritos, falas e cantos.
Claves, chaves,
fusas e semi-fusas
confusas, confusos.
Ruídos nos telhados,
na terra, da terra:
cheiro de vida,
que encerra morte
no encalço de seus pés.
28/02/96

VINHOS

É tudo sempre igual.
A essência nunca muda,
O continente varia muito,
O peso líquido do conteúdo, pouco:
Produção de qualidade.
Fura-se o frasco (a taça)
E o vinho derrama-se
Vinagre.
Doce borda e início
Final fisgante e amargo.
Quem bebe de um
Já bebeu de todos.
Um, é apenas parte do todo, e
A parte é a mesma coisa que o todo.
O que você pensa que muda é
Quando está mais perto ou mais longe;
Se você vê sempre ou nunca mais.
Todavia, não importa:
Se você tem (teve) um,
Tem (terá) todos.
- Não é realmente preciso, é?
03/03/98

VIAJAR

Vou pegar um trem e sair por aí
Sem destino certo, sem ter o que temer
Voar de asas; vem, vento da imaginação
Já estou viajando e vagando
Como a nuvem do meu coração

Sopra vento Norte, do Sul, o sopro da vida
Corre pelo mar nas vagas das ondas
Vem, vento, liberdade azul

Nova direção, estão as novas asas
Voando pelo chão
Queimando o que pisar
Trazendo e levando
O que será e o que já era!

Vou voar, vou partir, vou correr
Vou pegar, vou sair, eu vou ver
Vou queimar, vou sentir, vou viver

Viajar!
16/07/96

VIAGEM

- Eu sou o ladrão que escreve,
roubado de seus despojos,
vomitando minhas angústias;
esta é a explicação de você
não encontrar alegria por aqui.

A espera é interminável,
e meus olhos se cansam de tanto ver.
(Eu detesto visões, porque não posso pegar os anjos...)
Olho e não vejo nada: meus olhos estão abertos,
só podem (e só querem) ver o Mal
pela estrada que roda na janela,
nos olhos verdes que me perseguem:
eles estão atrás de mim.

A espera é interminável,
e meus pés se cansam de tanto andar.
Não caminho ao seu encontro,
eu não quero mais lhe ver.
Aqui de cima é mais bonito olhar
mas ninguém presta atenção,
porque ninguém presta mesmo...
Eu queria uma foto sua,
só que o tempo acabou
(Nem tive tempo de começar:
tenho que fazer algo urgentemente!).

A noite (agora não) longa guarda segredos
que nem o dia tem ânimo de revelar.
Expor-se dá muito trabalho.
A dor se condensa e se materializa em grossas lágrimas.
Eu sei o caminho que elas fizeram:
me deram muito trabalho
e ainda dão.
Bem que eu tentei,
mas você não me quer.
Não o culpo ( - corpo perfeito)
a rejeição é o que dói mais.
Apenas respire por perto.
Eu vou deixá-lo dormir.

Meus sonhos são vivas lembranças
de coisas que não vi acontecerem
e minha memória parece virgem
mas eu posso sentir
e sinto tudo intensamente,
sensacionalmente demais.
A dor vem do nada,
As lágrimas também,
E eu vou para o Nada,
aqui não tem lugar pra mim.

O que eu sinto de bom
é este único instante
quando estive ao seu lado:
o silêncio era o único
e eu tratei de acabar com ele.
Não adianta me consolar
não sei se errei
ao amar você:
Eu nem sei direito o que aconteceu conosco,
se lhe amei, não consigo descrever.
Aqui chorei sozinho, e...
- Será que você dormiu pensando em mim?
Talvez na eternidade
eu descubra
que antes, nós éramos um:
você me conhecia, e
os seus olhos eram os meus.

Chorei demais - se é que adianta -
e espero ainda lhe encontrar.
Se eu mandar um recado
Vou receber resposta?
Ainda vou voltar,
só pra lhe ver.
16/11/97