domingo, 4 de janeiro de 2009

ENAMORADOS

Só valorizamos as coisas
e pessoas quando as perdemos.
Ontem eu vi o quanto você valia.
Confesso que essas três semanas
também foram por minha culpa,
e quando olho pra frente
vejo que o futuro pode ser igual ao passado.
Você tinha que manter o seu fogo
mesmo que eu estivesse longe,
mesmo que me tornasse gelo,
porque depois eu sempre (sempre!)
voltaria pra você.
Porém, agora vejo,
que não seria capaz de mantê-la.
Você não seria feliz ao meu lado:
você não merece isto.
Há tanta gente que lhe quer bem
enquanto faço-a chorar.
Agora sou eu quem está chorando
para que você possa sair-se bem.
Me perdoe por tudo,
que quero sair limpo dessa.
Os presentes e presença que não dei
Os muitos e tanta que recebi...
Não foi justo
roubar seu tempo e seu amor.
Machuquei-a cruelmente
e lhe desvendei uma realidade de dor.
Seus grandes olhos não mereciam
ver o mundo do meu jeito.
Agora não vejo mais nada.
Vou chorar sozinho no escuro.
Eu pensei que estava firme e seguro
e eu estava
errado.
Terrível e profundamente errado.
Não me peça isso:
como posso possuir um corpo
que já não tenho mais?
Agora de novo
meu coração está sozinho,
só que inchado.
Eu não amava você.
Tarde demais eu descobri.
Eu sempre amei você.
Quero e
preciso de você.
Eu vou chorar só no escuro.
20/09/97

CORPO FECHADO

Estou chorando sob a lápide,
E a poeira que se mistura aos meus olhos
Torna barro meu corpo.
Só consigo enxergar alma.
Tenho meu próprio código de honra
E a capacidade que me convém.
Meu corpo está fechado.
Meus olhos estão fechados.
Então se abrem.
E minha alma está aberta.
Meu coração está fechado.
Meu corpo está aberto.
Meus olhos piscam.
Minha alma também.
Corpo coração olhos e alma
Abertos, fechados,
Semicerrados de soslaio.
02/04/01

ALMA NUA

Você sabe como despir minha alma
e despencá-la
despenhadeiro frio abaixo
mirando fundo no espelho escuro.
Por todo lado só vejo alma
exposta e manifesta
qual nudez de roupa presente
e minhas forças ficam poucas
frente às fortes fraquezas.
Acabou o seu carinho
(por mim, eu sei)
e não insisto onde já ganhei.
Vá em paz
porque temos as almas divididas
e a cicatriz em mim:
o seu jeito turbulento.
A caça é
quem escolhe o caçador,
por isso não faço muita força
pra ser carente quando a carência me deixou.
Minha alma é propensa
a deixar-se tocar
por outras almas.
Meus olhos são propensos
a extravasar
e ninguém tem culpa
do que sinto.
Minhas virtudes são defeitos
e meus defeitos não são nada.
Quem dentro de mim?
Quem dentro procuro fora?
Quem quero libertar
mantendo a chave aberta
a luz acesa?
Não posso ver nem silhueta.
A porta aberta
eu corro pra fora, você pra dentro.
Abracei minha sombra
Mas não posso beijar minha boca.
09/04/01

A QUIET PLACE (UM LUGAR CALMO)

minha alma voa
entre meus olhos atentos.
me perco das algemas
e encontro o alívio para a solidão.
o sol no ponto, ocaso
a lua também;
e outras influências eqüidistantes.
uma águia uma montanha uma lagoa.
nudez aparente, natural:
a mesma exposição que pune, premia;
ficam fora de minha habilidade de compreensão
tuas razões e sentimentos.
o frio conserva meu corpo; meus olhos
tocam todas as coisas.
o banho com as águas escuras
faz-me limpo
a meu próprio modo.
enquanto houver água
haverá vida,
vento no rosto
e todo o resto.
e o escuro aparece
como única alternativa,
como o equilíbrio;
elo indelével
do que foi e do que será
igual,
impermeável couro e triste.
o silêncio a água a escuridão.
o requinte e toda sofisticação sóbria do mundo.
te tocar com os olhos.
abrir-te a alma.
é preciso carinho.
espontâneo.
comprado ou pedido
não satisfaria tanto.
tu te aproveitas disso?
preferes o ouro mineral
ao animal?
escolhendo o errado
de ambos serás privado.
28/07/02

IMPORTANTE

Escrevo para você ler,
e você nunca vai compreender
minha totalidade.
Você é ingênuo
e eu sou inocente.
E cada um
tem uma realidade diferente.
Por mais que eu explique,
só lhe passarei
uma idéia do que sinto.
E quero que você
forme a sua opinião.
Vou escrevendo
sem perceber,
catando palavras ao acaso.
Fico vagando
por muito tempo.
E o que resta,
quando acabo,
dá naquilo que chamo de
poema.
Escrevo para mim.
25/04/96

Introspecções de Nós - Livro 1: Água com Açúcar


Uma alma humana, que se expõe no intento de aliviar a sua dor e quem sabe, com isto, encontrar no espelho um reflexo, uma outra alma sensível que se condoa também.


A todos aqueles que de mim fazem parte,
pois nunca esqueço duma alma no caminho.
05/10/03


“... Deus também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez...” Ec 3:11


“Ó vós, que tendes aberta a inteligência, buscai perceber o sentido exato que nestes versos, por vezes, está oculto!”
Alighieri, Dante. A Divina Comédia, Editora Abril 1979. (Inferno, Canto IX, versos 61 a 63, página 52).

Apresentação - por Maximiniano Pompeim Pessoa

O quê dizer de poesias?
Dir-se-ia que é a única maneira de tornar possível a comunicação entre o espírito e a inteligência dos homens, pois não é por acaso que se diz ser só através de uma linguagem poética que a sensibilidade carecendo de meios objetivos para se expressar conclama o intelecto para auxiliá-la e poetar...
Assim a poesia se aproxima de um diálogo sincrético pelo qual o poeta busca meios para estabelecer entre a amplitude inefável de seu sentir e os limites para expressá-lo uma forma pela qual se façam inteligíveis e comunicáveis as abstrações espirituais.
A amplitude da espiritualidade em suas dimensões infinitas reclamam do poeta buscar nos limites que as palavras impõem uma síntese na qual o perceber, o sentir e o pensar se mesclem dosimetradamente em um assentado equilíbrio.
É dessa emulsão que a interatividade entre razão e emoção faz com que o imponderável se decante e ganhe consistência de inteligível.
Só o poeta é capaz de traduzir na concretude que sintetizou a harmonia necessariamente dosada de densidade sutil e leve com que transmitiu ao texto o teor da alma de onde o escrito se decantou.
Esse é o desejo que todos temos de dizer as mesmas coisas, mas sem, contudo, sabermos como faz o poeta para sustê-lo leve à compreensão.
A linguagem poética parece ser um elo diáfano que liga o calor dos corações com a percuciência fria das mentes.
É só o estro do poeta que encastroa esta corrente ao viver em cada palavra os limites da expressão que angustiadamente vai ligando elo a elo na expectativa de que ele possa através da tessitura de seus escritos repassar-nos a sensibilidade de uma análoga compreensão.
Eis o poeta Iguatemy Filho construindo com o liame de seus versos um encadeamento de linguagem e sentimentos propícios a nos levar do seu universo à infinitude correlata de nossos próprios mundos.
*Max é professor de Filosofia e Direito Constitucional na Faculdade de Direito da Universidade de Itaúna.
10/11/03