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domingo, 11 de abril de 2010

FAROL E BÓIA-CEGA

Para estar perto de Deus...
subirei até as mais altas nuvens
tomando as asas da alva
e sobre as asas do Altíssimo
deixar-me descansar.
Como numa queda-livre de um salto duplo,
antes de abrir o pára-quedas.
A primeira eternidade é vento
a segunda é paisagem
(as montanhas hipnógenas).
Só Ele e eu, seguro;
e sinto seu corpo junto;
e sinto sua mão na minha;
e sinto um, mas somos dois;
não existe nada além de nós.
Sombra e Escuridão.
20/04/98

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

JOALHERIA


Leva-me ao fogo;
Apresenta-me a ele
refinado, e
tornar-me-ás parte de ti mesmo.

Toda a terra está contra mim,
minha água se revolta em mim.
A respiração falha,
a inspiração não vem.

Isolado no mundo apertado,
comprimido pelos corpos vagos
inconscientes da Vontade e
do Poder latente, inerente.

Teus olhos claros
brilham mais que tua alma.
Minha alma ilumina meus.
Jóias.

21/11/02

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

PARA VIVER


“– Quando você for fazer algo, você tem que gostar do que faz, e mais do que gostar, você tem que ter paixão, você tem que ter Tesão pelo que faz. Senão, não faça.”

“– Quando você for fazer algo, você não tem que fazer bem, você não tem que ser o melhor, você tem que ser o Único.”

Para viver, é preciso ter consciência da Morte.
Pois a vida acaba agora.
E que para ela ser válida,
tem que ser plena, cheia,
exagerada e sem mesquinharia ou frescura.
A moderação exagerada me mata,
mas o Exagero Moderado me torna maior, mais forte.
Me sinto vivo.
Eu sou livre.
Minha existência não terminará inacabada.

07/09/97

MIRANTE


Para estar sozinho
É preciso ser sozinho.
E num lugar inóspito
Ver o mar de luzes.
Com o vai e vem elétrico
Vento gelado cortante
Traz o cheiro salgado do mar.

A criança pergunta:
Mamãe, quando a gente morre, vai para onde?
Vamos para o céu, querida.
E ela olha para cima, céu estrelado,
Como se a cada alma transmigrada
Surgisse novo brilho no céu.
Um cometa caiu e instintivamente e
Ela pensou ter visto um bebê.
Em silêncio concluiu
Que a todo instante
Velhos morrem e bebês nascem,
Como sempre era noite nalgum lugar.
Só não entendia ainda como ascender ao céu...

07/11/03

terça-feira, 7 de julho de 2009

EXCELÊNCIA MORTAL


“Quero um túmulo bem bonito”,
você pode desejar,
mas é só um buraco fundo
igual ao de mingúem.
Vi um túmulo de pedras,
branco à beira do caminho
(conheço um velho longo em dias),
molhadas pedras pela névoa
da manhã que o sol não dissipou.
Ainda a morte
está em tudo na vida:
No sorriso amigo,
no falso falar.
Distintas tantas cores
quando o sol aponta ou desponta:
A vida é a morte,
e a morte é a vida.
As nuvens esparsas
me lembram defuntos
ao matinal repouso.
O movimento no céu
é o mesmo na terra.
Nuvens na terra: restos mortais
no céu cemitério.
E o deus astro desfila
distribuindo vida à terra.
Não, não tenho vida
(estou no céu);
Sinto o Amor danado,
santo, impuro e purificado,
retificado, ratificado
menino e maduro.
É duro, é difícil sentir.
Sinto, e sinto muito
mas diferente:
Quero paz e comunhão,
nesta ordem; e descanso.
Sou antiquado, duro, indomável,
não me entrego;
e romântico fácil.
Paz,
só quando comungar com a Morte.
O quente calor da terra e do Amor.
A Morte me quer por companhia.
Aonde vou, tenho notícias de mortos.
“É coisa da vida”, posso pensar,
mas ela não disfarça sua atração,
enquanto eu sim.
Porque não é só atração, é Amor, suave.
Quero um túmulo bonito
se possível,
mas quero um que seja simples
como fui, sou e serei.
16/12/96

... E SOL E LUA ...


Como do relógio o tic e tac,
Da ampulheta a areia,
E da vela a parafina,
A vida geme, esvai e evapora.

Qual o valor de um segundo?
Um dia, um mês, um ano?
Uma vida?

O carmesim que fez sinistro o dia,
Brotou morte da vida.
Maior que qualquer outra magia,
Sol a pino fez-se meia noite.

A um só tempo a natureza gemeu,
E geme angustiada
Esperando pela eternidade.
13/07/96

ESPELHO COMPLEXO IRRACIONAL


O espelho não é nada. É vazio, caos. Reflete a realidade, a verdade, o nada, o vazio e o caos. Solidão do mar de vidro e prata – barreira. É sincero – sou vazio e vejo isso nele – amigo. Se o homem fosse amigo, não teria inventado o espelho. É desconfiança, medo, egolatria. O limite entre o “certo” e o “invertido”. É alucinação coletiva. O nada refletindo o tudo. A verdade, a mentira. O claro, o escuro. O vazio, o cheio. O irreal, o real.
27/03/96

DIFÍCILS


Mudanças, variações.
O tempo escorre lentamente
para uma ampulheta,
sendo pingado por um conta-gotas;
Gigantes para pouca areia,
ou para pouca água.
E eu fico suspenso
nesse pouco tempo:
estranho, estrangeiro.

O povo está em crise:
prenúncio de revolução.
Tem-se a impressão
de que o tempo voa
com grandes asas.
A cúpula
não tem relógio.
Tenho a impressão
de que o tempo não passa.
Não tenho relógio.
São prenúncios de
mudanças de hábitos.
Trocar de vida pode doer,
ferir, sangrar.
Largar as muletas,
os sistemas de sobrevivência,
pode incomodar,
até atrapalhar.
Porque não estamos acostumados
com a nova rotina.
Mesmo que a velha seja nociva,
reclamamos.
Largar a solidão e o
silêncio de lado
é difícil.
Abraçar o amigo e o
diálogo parece ser ainda mais.
Eu sei ouvir,
compreender e
aconselhar, até.
Mas falar de mim...
(com um desconhecido é melhor.)

Viagem, viajem.
Vai, luz, e me leva.
Me tira desta arena
onde se digladiam
o touro e o toureiro:
O primeiro é o instinto,
masculino.
O segundo é a sensualidade,
feminina.
Ela o domina e faz
dele o que quer,
dentro da arena.
Vem,
e me leva pro vale;
Mesmo que eu não saiba
o que lá me espera.
Lá as coisas
começarão a mudar.
Já me libertei do
relógio opressor.

Mudanças, maturidade.
Os olhos são infantis
e vêem a beleza.
Passar dela pro desejo,
é um pulo.
Queria arrancá-los
e não mais ver;
Só com o coração sentir:
o amor não precisa dos olhos.
O desejo deles derruba
o amor quase todo.
A infantilidade minha
joga a maturidade por terra.
Vou lutar contra os olhos
para poder viver com eles.
Quero ver e sentir o que é belo.
23/02/96

quinta-feira, 2 de julho de 2009

DESERTOR


Estou no meio da loucura
e da inocência.
Loucura de querer alguém,
inocência de não conhecer ninguém.
Loucura de querer ser,
inocência de não saber ser.
Loucura de tentar viver,
inocência de não saber viver.
Estou pulando do barco,
esse balanço me enjoa.
Não me joguem salva-vidas,
vou aprender a nadar.
Sei que é possível morrer
de sede navegando
num mar de água doce.
Mas vou provar da água.
Vou chutar o balde;
Só balançar não basta.
Não adianta tentar me manter
no bom Caminho:
Todos temos o mal por dentro,
é só deixar crescer.
O bom, ao contrário,
só pode ser aprendido.
Sei de um e quero
conhecer o outro
lado da moeda.
Sair do meu minúsculo castelo
e ampliar meu mundo.

Na cidade grande, um som
como de um povo pentecostal
se faz ouvir nas ruas.
Mas são os vendedores
e camelôs gritando
nas esquinas cheias,
tentando ganhar mais que pão.
É...
Somos todos muito iguais,
unidos ou não,
de qualquer forma.
Homens e poetas.
Alma de poeta.
A Alma gosta de sofrer,
de sentir dor, de amar
e se sentir sozinha.
Uma poeta que encontrei
não se lia.
E eu, lendo-a,
mexeu-me algo
no meu interior.
Ela não era um espelho;
Poderia ser a água
de um rio.
Rio que vai pro lago
tranqüilo do castelo.
O furacão que vem
do deserto vai agitar
os ânimos.
Provocar uma tempestade
de brigas.
11/04/96

quinta-feira, 25 de junho de 2009

DE-Z-OITO


O espelho reflete a mesma imagem
Que de dez anos atrás:
Inocência e fraqueza,
Alienado e feio.

Quebro o espelho
E rasgo meu véu:
Me alieno da realidade,
Esquizofrênico (fico).

E choro sozinho
No meu escuro pequeno
Dentro de mim.

Nesse frio verão
A luz brilha escura
Pro cego aqui.
29/10/96

terça-feira, 23 de junho de 2009

DEMONIZAÇÃO


Queria poder dizer de uma forma descomplicada
tudo que sinto por mim e por ti; pelo mundo.
Mas minha cabeça muda tanto e tão rápido
que o que era, agora já não é.
E me dizes que tenho o demônio no corpo!
Eu não sabia que era isso – se é que se pode definir algo que não conhece apenas pela manifestação do exterior.
Rebolei e não fiz por mal
mas a tua tatuagem e as marcas no teu corpo me excitam,
tanto quanto tua voz e o teu ritmo: você é um dos meus ares.
Demonizei meus olhos com minha própria escuridão
(não preciso de ajuda externa para isso).
Teu corpo não precisa ser o perfeito para eu desejar,
é apenas o que falta, o que gozo em ti.
Respeito teu templo, e tenho as chaves para abrir o meu.
Não somos escravos do desejo próprio ou alheio.
Me sinto nu; de olhos fechados ou com os ouvidos tampados,
por isso te contemplo a alma em todos os corpos.
Desafio-te a provar, pois traição não existe:
Se ficas comigo, estás comigo;
Se ficas com outro, estás também comigo.
Meu amor não tem posse ou liberalidade,
é naturalmente livre e desimpedido.
Mas não dê ouvidos ao teu coração.
Atenta para todo o teu ser: não te partas, não te dividas, não te fraciones.
Tem uma vontade e sê fiel a ela somente
Anjos e demônios não podem decidir por ti.
07/03/03

segunda-feira, 22 de junho de 2009

CRIAÇÃO


O absurdo da criação:
A criatura parecer
com o criador -
Um egocentrismo caro:
matando-a,
mata-se ao
deus que a criou.
Ela não pode viver
no mundo dele
e nem o contrário.
Não sabem, contudo,
que sua dor é a mesma;
Que estão ligados
pelo amor da criação
e pela dor
da frustração:
Cada qual no seu
canto chorando
a ausência do outro,
e exigindo direitos
que não foram eleitos.
Quando a vida foi
criada, a morte
também veio -
uma vida, várias mortes.
A dor é a mesma
que une as duas pessoas
feitas separadas.
Belo e Caricatura.
São iguais,
necessidades iguais,
dores iguais,
ódios e amores iguais.
Criador e Criatura.
É a mesma coisa.
O mesmo frio fim
para os dois,
da agitada vida
(Ela se rendendo
e ele se doando),
para acabar
com os sofrimentos
que os eternos
iam penando.
Um último grito
da criatura -
ele se calou,
não tinha e
renegou o direito.
Fez o que
achava que era certo.
Encerrou a vida
sob a morte.
Pelos séculos dos séculos
o segredo permanecerá
debaixo das ondas
do mar.
14/03/96

COMPRAR FEITO


O que foi feito de minha vida?
O que fizemos com as nossas?
O que você pensou?
O que você fez?
O Tempo simplesmente aconteceu!
Você estava preparado?

Como é bom voltar ao trabalho
na rotina normal, sem feriado.
O caos no interior de um leprosódromo
é inimaginável.

Há algumas noites
você me viu.
Falei dos meus olhos?
Bom seria que sem falar...
Eu não precisasse fazer,
só comprar feito.
16/06/98

sexta-feira, 12 de junho de 2009

CARTA DE UM CAVALO A SEU CAVALEIRO


Um guerreiro às vezes precisa de amparo do vento frio cortante na noite solitária e de uma espada por onde possa chorar as lágrimas vertentes do sangue amargo e morno do Destino... ou da Dor.
Por que viver quando só se atrapalha outras vidas? A morte torna doce a alma que nos breves momentos seguintes será lembrada, e por muito tempo depois, esquecida.
Que diferença faz, se nunca foi desejada? Companhia de si mesma e do seu Guerreiro solitário a guiá-lo pelo vale da sombra. Suporta tudo. Aprende com a vida o modo ser a morte, a água, o fogo, a terra, o ar; a Luz e as Trevas. Com seu coração corta a própria espada. Com a língua, dilacera o próprio corpo. Vive a velhice na infância; após a puberdade, rasteja e vegeta. O corpo natural acabou, sua mente continua aqui, enquanto se lembram dele. De quem foi um dia, não! De quem ele é.
De quem é? De tudo e de todos. Amou, como sempre amou. Chorar, já derramou o bastante. Por mais que quisesse ser tocado, em vão é dedicar carinho a quem não dá afeto, esperando receber o mesmo em troca. Obtém-se falsa esperança, desamor, ilusão.
Quisera sempre amar, sem querer mais do que amar sempre. Mas é difícil, você sabe. Faísca e GLP. É apenas a faísca que não se confunde, se domina, e não se funde ao misturar. Como combustível preso e detonado, ele.
A alma quer ser tocada pela Morte. A Dor é uma mulher caprichosa... O Destino é deus de ninguém. Faísca e Treva. GLP cavalo.
16/06/98

quinta-feira, 4 de junho de 2009

COMUM


É tudo comum.
Nos dias comuns
As pessoas comuns
Fazem coisas comuns
De jeitos comuns
Para finalidades comuns
Tendo alegrias comuns
Por tempos comuns.
Olhares comuns
Captam olhos comuns
Olhando coisas comuns
Na multidão comum
Das solidões comuns
Do homem comum
Precisando de um amigo comum
Numa hora comum
De tristeza comum
Da frustração comum
Do fim comum
De um amor comum.
Eu como um.
Você come um.
Não, eu não quero
Ser como um.

Quero que
Num dia especial
Uma pessoa especial
Faça uma coisa especial
De um jeito especial
Para um fim especial
Tendo uma alegria especial
Por um tempo especial.
Quero olhares especiais
Captando olhos especiais
Olhando coisas especiais
Na multidão especial
Da companhia especial
Do homem especial
Compartilhando com um amigo especial
Numa hora especial
A alegria especial
Do sucesso especial
Do começo especial
De um amor especial.

Mas então,
Tudo será comum.
Porque o especial
O deixará de ser,
E passará a ser
Comum.
Como o comum
Que havia antes
Do especial.
01/05/96

quarta-feira, 6 de maio de 2009

CH’I


Quando acordei, senti sua falta ao meu lado;
a cama ainda estava quente, e desarrumada.
Tive um sonho estranho, que me molhou todo.
Era verdade que eu fui um aborto
e vi você no meu lugar.
No meu banho, você se lembrou de mim,
e principalmente de que não gosto de que me olhem nu.
A barba foi feita antes
bem do jeitinho que eu gosto.
Eu uso o seu perfume
embora prefira senti-lo em você.
Por onde passo não há sensação de novidade
e os seus passos seguem comigo.
Eu quase que poderia sentir o calor da sua mão
se não fossem os anos e a distância que nos separam.
Mas em cada detalhe
eu vejo que você está lá, e aqui
dentro de mim.
O Tempo me conta suas histórias
e por isso você continua vivo,
como quando antes de sermos dois.
Suas mãos tocaram as minhas
e seus olhos me viram com amor.
Depois quando vivi,
procurei tanto em todos os olhos
um olhar semelhante ao seu
e muitos me reconheceram!
Muitos outros mais, porém, não se deram de beber.
Se eu pudesse, uma vez que fosse,
e por mais rápido que conseguisse,
mergulhar por um instante dentro do infinito,
nunca mais de lá sairia.
Preciso de toda intensidade e de toda autenticidade:
preciso de você.
Lembro do sonho que tivemos juntos
um dia e hoje, eu sei
- nada foi sonho
nada é real -
Eu sou você.
Você é eu.
26/11/97

terça-feira, 5 de maio de 2009

CAMPO HARMÔNICO


Universo em harmonia.
Tudo em revolução elíptica
ao redor da cruz.
O príncipe cético;
O menino inocente.
Alguns atentos, outros indiferentes.
Não é possível achar o pecado.
Ele não está à órbita crucial,
ele mora lá dentro.
Do príncipe,
do menino,
d’alguns e d’outros.
Dentro da própria cruz.
Sangue versus glória.
A glória por fora.
Pecado navegando em glória.
Estrelas ou sóis conjugados.
Corpos pessoais no plano.
Afirmação e negação simultâneas,
de verdades e mentiras absolutas.
A razão do irracional, e o ele dela.
Luzes e lentes no buraco negro.
Espaço – Tempo – Limite.
Onisciência – Onipresença – Onipotência.
08/05/96

CARNAVAL


E então, o que me trazes de bom?
A tua alegria é porca:
força o riso e
rola a lágrima.
- Todas as emoções são quentes...
Até mesmo essa
sensualidade banal
com movimentos hipócritas.
A loucura coletiva cega:
ao povo, pão e circo,
a religião e o ópio!
Mas...
De repente, alguém vai embora
(deve ter consciência ou serviço pra amanhã)
a música pára
a chuva aumenta
a cerveja acaba.
Os bandos se dissolvem em outros
agora, caravanas.
Porque andar só à noite é risco.
As brincadeiras deram lugar ao medo
ainda fantasiado.
Porém não entendi
porque fiquei na rua até tarde
se estava deprimido e excitado...
Agitado, melhor dizendo.
Nunca entraste em crise?
Não te cansas dessa vida?
De serdes atraído pelos corpos
como joguete, de um lado para o outro
sem que a razão possa funcionar,
impor limites ou padrões?
Os olhos não se fartam de pedir mais
mas devo ter repelente no corpo...
Muita dor no coração.
É difícil lidar com o ser humano
no campo amoroso ou
amigo-romântico.
Todos são carentes,
mas não querem estragar a festa.
É triste sentir a inveja
da tua não ser a minha história.
Sonhei, mas não aconteceu
e dói no fundo do meu ventre
o que eu queria e que não aconteceu.

Se talvez alguém estivesse presente
eu talvez não estaria aqui ou seria assim.
Se talvez alguém estivesse ausente
eu talvez não teria permitido que
no meu coração brotasse a flor.
Se alguém talvez colhesse a flor
talvez meu coração não seria dois.

Meu ódio: meu amor: meu poder: meu prazer
(dor: embora qualquer permuta seja verdadeira).
Meu prazer: meu poder: meu amor: meu ódio.

Quando foi tempo de chorar
minhas lágrimas não estavam prontas
e o coração chorou sozinho.
São Pedro se comoveu
e pediu pra São João chorar também
pra consolar seu filho,
pra lavar-lhe a alma e os cabelos.
Deu-lhe das asas os anjos
e aconchegou-o a si.
A chuva estragou minha fantasia de felicidade
dos meus cabelos.
E vi que não sabias também
passar maquiagem.
Te deixei seguir teu rasto na lama
e acompanhei a andorinha
pelo céu (agora sem confetes e serpentinas)
até aquela linda luz violeta.
24/02/98

segunda-feira, 27 de abril de 2009

BRINCO


Por trás dessas linhas, entre essas linhas
existe algo mais e muito importante, maior.
A Maldade talvez te diga, eu não o direi.
No trajeto da vida, do crescimento,
da criança ao adulto, acontecem coisas...
A afeição natural se embota, pela sociedade
exigir força e equilíbrio sobrenaturais.
Sim; quero, preciso, anseio,
um olhar, um aperto de mão, um abraço,
um afago, um mimo, um brinco (de brincar),
um beijo. Sim, inocentes.
Mas a inocência pesou no meio do caminho
e caiu, para ser pedra de tropeço
aos outros viajantes que vêm após mim.
Não há mais tempo para buscá-la;
também não a acharia, tão pequena deve estar –
Encolheu e se perdeu de vista.
Minha afeição se corrompe, ou tenta,
mas não há nada por lá.
Olho de novo, e me pergunto
se tua inocência não daria para nós dois.
Vamos ser crianças, naqueles dias.
30/06/96

terça-feira, 7 de abril de 2009

ARRUMANDO


Quando mexo e arrumo
Os restos do passado,
Eu rio, eu choro,
Ouvindo o que se foi
Dizendo o que é.
E os restos não o são,
O resto é tudo
Que fica
Depois do barulho,
No silêncio,
Na solidão.
Vejo que cresci, que aprendi,
Principalmente com os erros.
E as quedas
Me tornam cada vez mais
Forte, sensível.
Eu sei, mas não entendo.
Me ajude,
Que agora estou sozinho
Mas estou bem,
Feliz, pelo menos no momento.
Arrumando as coisas,
Limpando e guardando.
Porque vai começar
Tudo de novo.
Eu agüento.
Eu sei,
Mas não entendo.
E nem preciso.
O prazer é agora.
12/02/97