terça-feira, 6 de janeiro de 2009

LUZ


Sempre gostei de ficar à sombra.
Não sou vaga-lume, nem fico na frente da luz:
Sem perceber eu fico na sombra,
Atrás da sombra a luz não fere meus olhos.
Na viagem, no escuro,
Atrás do morro à noite,
Rolam as águas da cidade.
Piscam, iluminam as águas
As luzes dos postes, das casas,
Ao longe, no horizonte.
Nota-se o verão, e o fim de ano:
Comercial Natal,
O falso natal de inverno.
Mais luzes, mais cores
Na cruz, na estrela, fachadas, letreiros,
Brancas, pardas, vermelhas, amarelas
verdes, azuis e etc.
A luz ilumina o distante e o escuro.
De perto me invade e
Não aquece, só ilumina o meu ser.
Se as noites são mais belas
Só há preto ou só há luz.
No caminho em trilha
A tristeza é eterna.
06/12/96

ITINERANTE

Crime, Castigo e novamente Crime.
É a saga do peregrino em terra estranha.
Eu sei, mas não sei se tudo isso
vai dar pé.
Não vejo a luz no fim do túnel,
nem sei se porventura eu já passei.
Não posso começar tudo de novo
embora queira.
Você me dá fome:
eu quero justiça, quero sua alma
quero a Morte, só que
nem adianta chorar;
Eu usei você e me machuquei.
O telefone toca e procura todo mundo
enquanto estou aqui morrendo sozinho.
Deixe-me dormir em paz.

Fulgazes relâmpagos:
Frenesim, Écipa* e novamente Frenesim.
Tudo passa, e agora que mudei
percebi o quanto de mim se foi:
meu amor e meu ódio.
Não tenho nada a perder,
não há nada a ganhar.
Apenas carinho, mordidas,
palavras e pertences.
Minha boca está a salivar.
A lua está crescente
e quando o sol vier
a grama deve estar mais verde
o céu deve estar azul
e você deve estar dormindo.
O meu presente já lhe dei,
afinal, hoje é
parabéns pra você!
Vinte anos se passaram,
e parece que a encontrei ontem...
Prefiro me iludir
se a realidade for bandida.
Perdi minha identidade
e meu poder aquisitivo;
uma parte do meu ser
no chão escuro, vazio e úmido.
Nem adianta rastejar,
só Deus sabe onde errei.
É inevitável o passar do Tempo
o jeito é fechar os olhos e meditar.
03/12/97
* Écipa = inversão de ápice.

IPÊ PERTO DO LAGO

Minha alma está acordando
e percebendo que o sol
também renasce,
enchendo-a de luz e calor.
Teus olhos cristalinos
contemplam a árvore centenária
e a maravilha das estrelas
– somos como as cadentes,
que passam por um instante
com o sinal da cauda brilhante –
Tudo passa,
nada passará.
Nos transformamos,
adquirimos sabedoria.
A paz da vida sob o
Ipê Amarelo.
Nem bem o inverno foi embora
e o tapete amarelo
já é esmagado no chão,
inocente e forte
como tu,
e teus olhos limpos,
e tua pele alva.
És como aquela casa amarela
que eu via no caminho
fechada, desbotada e sem vida.
Até que um dia mostrou sua luz,
sua vida e sua beleza.
Você admira o pôr-do-sol
e me fala de Deus.
Você admira as ondas do lago
e me fala da Luz,
o mais miserável dos homens que sou.
Me envolves com tua alma
e me sinto o mais infeliz.
O meu carinho...

Não ligue pra mim.
28/08/97

IGUAL

A dor dos que ficam
é igual à dor dos que vão.
A tristeza das lágrimas,
à alegria do sorriso.
O olhar de um senil, ao de um infante.
A arte e todas as causas sociais
A Sabedoria e a Escuridão
Sombras durante o dia
luzes soprando à noite
O amigo e o inimigo.
O desejo e o amor; o ódio, a indiferença.
O beijo da Morte
o descaso da vida.
A simples perfeição é
igual ao vício difícil.
19/12/97

GRÃO DE AREIA

um sentimento negativo me invadiu
e no auge da inutilidade
pensei em fazer o mal.
avaliei minha vida até aqui
e a única coisa com sentido
foi poeira em minhas mãos.
olhei para as estrelas
e vi teu nome escrito,
dentro do meu infinito.
no meio do teu silêncio
o resto faz sentido,
mas para o meu próprio bem
tenho que encontrar isso
sozinho dentro de mim.
e apenas eu,
tão pequeno em semente
no fruto da grande árvore,
floresta, terra, universo.
08/07/01