Da Árvore da Vida
a folha seca cai,
ao som da chuva
à terra a folha vai.
A folha, morte da Vida
cai com a chuva que
à cor da terra a desfaz...
Suco de folha seca
que com a chuva rega
a terra onde da Vida
a Árvore está plantada.
E a morte da seca
é feita vida, chuva.
E a folha seca que cai
morta, se transforma
em vida e com ela rega
e volta à terra,
da da Vida Árvore.
A morta despedida da vida
se recicla e ressuscita,
de nova forma
volta à Vida.
01/11/96
Onde deixaste tua voz?
Teu jeito de falar
era gostoso de ouvir.
Quem te maltratou assim?
Restaura teu ser.
O tempero dos teus olhos
é melhor que o de muitos
outros escondidos.
É que não tens mais medo
de te mostrares de vez em quando,
mas sim o conhecimento adquirido
pelos erros e escorregões.
Tua metade eu tenho
e a outra eu não quero.
Eu sou os dois e somos um,
mas esqueci e foi melhor:
eu não sei andar em pé,
só me arrasto ao engatinhar.
Corra logo com tudo isso,
é complicado pra me delongar.
Você não entende o que eu digo
cochichando ao teu ouvido,
só que não precisamos conversar
nem nos ver.
É tudo intuitivo
como o céu, a adivinhação,
os anjos, a morte.
De noite não há erros
e a Censura está dormindo.
Os piratas estão soltos
ajudando na navegação
dos corpos astrais nos sonhos pelo céu
e no nosso interior corrompido e ardente.
Por um lado sim, pelo outro não.
A linha divisória me é atrativa.
Te vejo,
mas às vezes não me vês.
A lua te ilumina mas
podemos nos esconder.
Dividir o todo em partes
e suas partes em partes.
17/03/97
É fácil dizer “Adeus!”:
você não sabe da dor dos que ficam.
É tão estranho que
alguns se vão antes...
Então senti que meus olhos marejavam;
eram lágrimas por esses tempos bons
que não cicatrizarão pelo resto da vida.
Eu e nós nunca fomos tão autênticos...
Você também tem um coração
que sente e chora e suspira
porque tem de fazer uma coisa
que talvez não queira,
... antes que tudo possa acabar,
mesmo que o final seja indesejado.
Mas o tempo pulsa
e rodopia pelo ralo
à nossa vista, à nossa volta.
Nos separa de um jeito
e nos junta de outro.
Não pude ficar alheio
quando soube que você estava chorando
e deixei que meus olhos dissessem
o que já não precisava ser dito.
10/11/97
Chega certa altura da vida
Que não vale mais a pena cair
E sujar-se na lama por querer.
A alma se acostuma tanto com a dor
Que passa a tê-la como aliada
Em vez de inimiga
E sua fraqueza se transmuta em força
(milagres nunca acontecem).
Mágica é ilusão
Magia é arte
O espaço e o tempo não existem
Tampouco os sentimentos
Sumindo num turbilhão
Desabando pelo ralo da pia do banheiro.
E os pensamentos confusos,
Apenas espectadores
Do macabro e negro espetáculo,
Duvidam de tudo.
Me acham duro como a enxurrada
E apenas algumas pessoas provam
Das minhas puras águas.
Não subestime (nunca diga nunca)
A força e o poder dos elementos.
26/11/99
A última estrela é também a primeira
Que vai e que vem.
À noite
Passo por ela e nem me vê,
Ou ignora deliberadamente
Para não ter o trabalho de se confrontar
Consigo mesma.
Meus olhos são espelho e sombra
Daquilo que sou e do que poderia ser
Daquilo que não sou e do que finjo ser.
Mas seus olhos não são iguais aos meus
E (ai!) me machucam ao brilhar,
Ofuscam minha sombra.
As forças que operam em meu interior
São como as que estão no exterior
Tanto que às vezes as confundo
De tão iguais.
Então um largo e intenso movimento
Me deixa de largo, à mercê
E me vejo no centro adiado
Como que evitando o que quero sem querer.
Se o que dói fosse tão suave
Como um cálice ou uma taça de cristal,
Ainda assim valeria pouco (apesar dos olhos claros)
Pois está distante e não posso beber em seu corpo.
Me faz sentir um frio desejo
Que se resolve na concepção de um problema:
Necessário fora possuir você
Além de aqui, dentro de meu coração.
Só fica um vazio impossível de você preencher.
Meu corpo é meu e ninguém pode possuí-lo.
Inclusive eu, prisioneiro de mim.
Não me mostre seu coração
Uma vez que não posso tê-lo.
Não me fale, que não posso ouvir sua voz.
Não me toque,
Meu corpo não foi feito para ser tocado.
Ele aborta o espírito
Para que a alma possa respirar e suspirar.
Como se houvesse alguma separação em mim mesmo...
08/03/02