segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

PASSOS


Só ouço passos.
Passos surdos.
Marcas repisadas.
Caminhos novos.
Passos que vão para longe.
Será que alguém
(além do Tempo)
vai embora?...
Sim.
O Tempo é silencioso
e os passos surdos soam.
Não posso repisar suas pegadas:
nunca encontraria.
Temos que tomar caminhos opostos
para estarmos frente a frente
em algum outro lugar
num novo momento
(talvez a hora certa).
Você compreende?
Nosso caminho não existe.
Tenho o meu; você o seu;
e o Seu caminho.
Seus sapatos não me dizem nada:
de onde, para onde.
Seu silêncio me fere.
Eu amava...
(Porque não acabou, meu amor
se perpetua consigo.)
e não tinha seu amor.
Mas aprendi a não dizer adeus
por não saber quando era a despedida.
Me acostumara com sua presença.
Me acostumo com sua ausência.
Consigo levou minha paixão.
(Não amarei mais ninguém.)
Talvez juntos, pegaremos do chão
o que de mim foi levado
em silêncio,
com o Tempo.
Talvez eu espere no mesmo lugar:
não tenho força para me mexer.
Esperarei seus passos.
Aí, encontrarei a rosa
no deserto do seu coração.
23/08/96

PADRINHO

Vê.
Vazio
o prato solitário
se equilibra
cheio de
Preto e Branco.
Meu desejo
o vento espalha
pelos quatro cantos da Terra:
o meu Amor é disperso,
verdadeiro e diverso
de minha vontade.
Que meu querer fosse
solitário
como penso que sou.
Sempre depende de alguém
o meu limite:
ele é quem impõe
coroa de espinhos
ao meu coração.
Seria tudo mais fácil
se não existissem desejos
que vêm e vão
pelos corpos diversos
inconstantes
sem conteúdo ou sentido
que vivem em vão.
Agora, me dá a Perfeição.
O prato se quebra sozinho,
não tem equilíbrio no chão:
cai e joga pra fora o vazio
de achar em si mesmo o erro,
de deixar se levar pelo vento,
ser marcado pra sempre com o ferro.
A carne queimada com o fogo,
a força que brota do ódio;
O mesmo que nasce do “quero”
impróprio pro tempo em que vive.
Coração estranho em corpo deitado.
Vê.
29/11/97

OSTRA

“Uma pérola para sempre”
e o grão de areia
deitado eternamente em berço esplêndido
iluminado ao som e à luz
do breu profundo;
Descansa em meu ser a pedra
fruto do que nos é imundo.
Você admira sua beleza
sem saber o interior do coração.
Eu sei o que gerou a dor;
Eu sei o que gerei, saber.
Eu sei o que geraste, amor.
Na inconsciência do mar,
nas pedras e recifes
falésias e placas submersas
conchas e objetos perdidos.
Incrustado no céu, o sol.
A lua desmedida
na balança se hesita, mede
a duplicidade da maravilhosa
biologia: gêmeos.
Superficiais, concisos e inteligentes
críticos e instáveis, farsas
cumplicidades e acusações.
Subindo e ascendendo ao céu
pelo caminho das horas.
Excitado pelo fogo
correndo pelos ares
procurando alívio aquático.
Faço pérolas e pérolas sem grão:
são maciças, e não falsas.
Você não percebe a diferença!
Às vezes nem eu distingo
o que há, mas há.
Não há pérolas falsas,
apenas origens não confiáveis.
O sal do mar era pouco ou demais
e não valia a pena provar.
Só eu sei o que ocorre aqui dentro.
Você vê pérolas
eu vejo lixo, ou natureza.
Uma forma de defesa
que não resiste ao bisturi
dos teus olhos de ostra.
Meu medo não faz mal,
me mostra teu sentir.
Só verei totalmente
quando também puder ser visto.
Vejo que sou ostra
– as folhas caem
nos mares lunares –
e que tu és ostra também.
14/05/97

OLHOS

Olhar. Sentir...
Buscar outro olhar em que possa refletir-se e perceber:
Olhares não envelhecem, apenas se aperfeiçoam.
O sorriso envelhece; os cabelos envelhecem; mas olhares não.
Os olhares sentem e revelam o que há por trás de si.
Percebem e são percebidos. Não querem dizer, mas buscam outro olhar.
Miram-se no espelho (profundo). E não retorna resposta, apenas perguntas.
Lançam no ar suas palavras silenciosas.
Com as quais sempre têm o quê aprender.

Se com o olhar se fere, com o olhar será ferido.
Feridas invisíveis, imperceptíveis. Que provocam dor maior que a física.
Olhares também curam. Encerram na íris o bálsamo e o vinho. A vida.
Olhos fechados também vivem. Talvez se escondam, querendo fugir.
Mas um dia se abrirão, para a vida, para o amor.
Olhos negros, castanhos, claros e incolores – olhos.
Janelas através das quais contemplamos o mundo.
Mesmo fechadas, sabemos que há luz lá fora.
Então as abrimos.

Lágrimas acontecem. De dor, de alegria.
Às vezes escapam, às vezes são arrancadas.
Mas sempre, lágrimas.
Lágrimas que ferem, que aproximam, que lavam a alma e o coração.
Não deixam rastro por onde passam.
Às vezes, o máximo que conseguem ou podem ser, é imperceptíveis.
Sempre acontece alguma coisa: o tempo, o espaço. Olhos.
Quando venta, se fecham – proteção. Fecham-se, quando da Morte.
Um dia, ainda se abrirão...
06/01/95

OLHAR, SONHAR

Feche os olhos e veja:
por sobre, o céu límpido...
e azul.
Olhe ao redor, até onde o olho pode sentir,
e veja o relvado do horizonte até seus pés...
verde.
Olhe para você, suas roupas...
brancas.
Olhe por trás e em baixo
e veja uma rosa...
vermelha.
No céu, o sol...
amarelo.
Não acorde de sua realidade.
Não deixe que te façam sonhar.
Você está sempre de 98 a 100.
Por favor: não abra os olhos.

VI VER D - Esperança?
VI --> VA!
10/01/95