Sinto a força em minhas mãos
mas é só por um tempo.
Alegria de ilusão.
Portanto, quero morrer cedo.
Caso contrário,
este velho vai ficar mais ranzinza.
Cada vez mais gago,
cada vez mais lelé
em minha lucidez.
Alguém vai ter que me ajudar
a ir ao banheiro;
Não era isso que eu queria.
E meus filhos não poderão
cuidar de mim.
(Que filhos? Não tenho.)
Minha força me abandonou
e carregou um pedaço de mim.
Só sinto esta vida
velha e pesada
sobre meus ombros, pulsos e artelhos.
Não falo do que não conheço
e entendo bem.
Sinto através dos meus e dos teus olhos.
Ensine-me de novo a sorrir
enquanto continuo a sublime tarefa
de saber viver.
Talvez eu me arrependa
de tantas palavras vãs.
Agora vejo, além de olhar
(o que tenho de melhor).
Será que estaria tudo errado?
16/01/97
Não era meu e eu tinha.
Minha força me abandonou e
carregou um pedaço de mim.
Não quero.
Não alcanço.
O tempo passou e
não te reconheço:
Vejo o que nunca imaginei,
o que me impede de sonhar:
Morreste para mim;
Não te matei, foi natural.
De uma natureza inexistente
em mim.
Não tenho mais esperança
de ti.
Não tenho mais fé
em ti.
Não tenho mais amor
por ti.
Sonhei alto demais.
Me iludi com o céu e caí.
Talvez eu tenha que ficar só.
No deserto alternativo
que criei pra mim.
Areia e sol sem rosa.
Nada se compara a ti,
Mas alguém já se apossou de ti.
Não te conhecia,
e muito menos agora poderá.
Estou alienado,
Desorientado e triste.
Lágrimas não resolveram.
Também não vou rir.
Andarei. Talvez o Caminho.
(É mais certo que sim.)
Amigo
Tempo.
Início e fim de um cotovelo.
Criança trancada.
Teorias não resolvem
As vítimas dos olhos.
19/07/96
Está mais escuro,
está mais frio,
está praticamente deserto;
é silêncio.
Só ouço no meu coração
repercutir o grito de Tetra
esculpido na testa
dos únicos torcedores que cruzaram o vento,
que de seco não uivava
ao ferir os meus ouvidos.
Difícil é respirar no medo,
sobreviver com a lágrima abafada no peito
estrelado de esperança.
Que a lua testemunhe
a queda de uma estrela,
que rodopiou mais do que devia no céu.
A emoção dá lugar à sensação
rejeitada mas prevista
que o sabor amargo é de prata.
Uma em cada canto da boca:
decepção, tristeza.
No olhar, a vibração inglesa.
Pingando da unha dos pés
a última gota de fé
que combatia o ceticismo petrificante.
Algumas luzes da cidade se chocaram
com homens desinibidos se beijando na TV.
Os fogos tímidos celebraram,
porque não poderiam ficar quatro anos aguardando.
12/07/98