
25 de janeiro de 2004.
Terminei há pouco de ler seu romance e digo-lhe com grande satisfação e um profundo pesar que não esperava um gesto tão inocente como o seu, de tentar destruir o retrato. Já era de se imaginar que com uma relação tão profunda entre suas máculas e vícios, tal ato lhe mataria, suicídio! Mas tenho com você grande semelhança, que vai além de seus vários anéis e minhas sempre três alianças características (todos me perguntam o significado, mas quando digo que elas não têm nenhum, ficam decepcionadas... Assim, invento estórias, e a verdadeira é que simplesmente adoro o ouro – principalmente o branco – apesar de não ter nem o cheiro da sua riqueza ou sua estirpe nobre). Senti como se mesmo sem me conhecer, você tivesse me influenciado de forma parecida àquela que o livro e o próprio Lorde Henry o influenciaram na época de sua adolescência. Minha curiosidade quase não se conteve ao querer saber o título do livro que você leu, mas você não o citou, prevendo que resultados funestos isso teria. De qualquer forma, a fascinação dos sentidos (“Curar a alma por meio dos sentidos e os sentidos por meio da alma”.) atravessou as gerações e me alcançou em pleno século XXI. É pena que tudo atravesse a alma e a transforme, mas não permaneça; as pessoas continuam tão vazias quanto antes; não aprendem nada nem se refinam ou se destilam – o vinho envelhece, tornando-se melhor; os homens no entanto, emburrecem. Uma vez e nunca mais, um pouco e sempre mais: é assim que pulsa o desejo da alma insaciável, despertada pelos sentidos e pela razão; e daí em diante dança e equilibra-se sobre a fina música sensual. Somos tão depravados! Mas em quase nada nossa aparência demonstra a torpe maldade dos corações. A conclusão a que cheguei foi: apenas um homem disposto a enxergar o mal irá encontrá-lo em qualquer lugar que seja, inclusive na alma das pessoas. Nem eu ou você imaginaríamos a variedade, a legalidade e o alcance que as drogas alcançam hoje em dia. Tudo que vivencio recorda-me o tudo que existe apenas nos momentos de prazer: os odores, aqueles odores do intenso prazer; as vozes, aquelas vozes no silencioso prazer; as cores e formas, aquelas cores e formas de puro prazer. Não quero apenas viver intensamente como você, e simplesmente passar pela vida sem construir nada. O amor, a arte, a vida, a morte. Você deveria ter aprendido que nada pode ser mais pernicioso ao homem que a bondade – através dela, ele enxerga mais nitidamente sua essência maldosa e cede a ela: a bondade sempre perde. Foi assim sua amizade com Basílio; e depois você realmente creu que tinha se tornado melhor? Que seus objetivos eram beneficentes? Eu penso em melhorar meu refinamento e minhas capacidades, como concentrar o máximo de fel no mínimo de mel. Tenho um pequeno receio de que no fim das longas noites e da curta vida, eu esteja sozinho, como você: rodeado de pessoas que não podem me acompanhar aos locais que freqüento, e muito menos nas discussões etéreas do meu pensamento. Não tenho a desenvoltura necessária a uma vida socialmente saudável, penso ser mortalmente aleijado das virtudes atrativas da coletividade. Assim contemplo a cada vez que respiro, minha tragédia vital. Meus olhos escurecem e vejo seu rosto no fundo de minha alma: é inútil tentar curar os sentidos ou a alma.
Com triunfo, i. G.,
um descendente menos favorecido.
