quarta-feira, 6 de maio de 2009

CEGO


Ainda não é chegada
a hora da verdade.
Minha incoerência
me embaraça demais.
Continuo embaçado
diante de meus olhos.
Te engano, me engano,
me oculto de ti;
me maquio pra mim.
Represento, mascarado,
dissimulo e disfarço.
Mas no final eu me traio
ao olhar objeto.
Meu olhar te fala
a verdade que sinto:
Emoções em roda,
calculismo não adquirido.
Vivo, não posso
me manter frio,
morto e alheio
aos estímulos;
Emotivo, fervendo.
Pra minha sorte
não sentes a chama
dos meus olhos
te queimando.
Um dia,
nossos olhos
se nos verão,
sem véus ou espelhos.
20/06/96

CHEIROS E SONS


Como pode esta bela música
invocar o diabo?
Belos perfumes e o ouro
lhe agradar?
Que pensa o pobre homem
nos delírios da ignorância?

A dor de imaginar nós dois
me parece pior que
a dor de esquecer-te.
Sinto mais prazer quando te elimino
por meus poros, líquido ou sólido
(nem quando te absorvi foi assim).
Minhas palavras
te inspiram melodias
que se tornam novo sentimento no coração
de nosso leitor-ouvinte.
Em minhas mãos aprendo o domínio
de usar velhas chaves poderosas.
Mas não quero mudar o teu coração,
enquanto não posso mudar o meu.
A coincidência nos põe cara a cara
mas teu coração está sitiado.
Então sento na cadeira
e espero
(com meu ouro, minha música e meus perfumes).
07/10/03

CH’I


Quando acordei, senti sua falta ao meu lado;
a cama ainda estava quente, e desarrumada.
Tive um sonho estranho, que me molhou todo.
Era verdade que eu fui um aborto
e vi você no meu lugar.
No meu banho, você se lembrou de mim,
e principalmente de que não gosto de que me olhem nu.
A barba foi feita antes
bem do jeitinho que eu gosto.
Eu uso o seu perfume
embora prefira senti-lo em você.
Por onde passo não há sensação de novidade
e os seus passos seguem comigo.
Eu quase que poderia sentir o calor da sua mão
se não fossem os anos e a distância que nos separam.
Mas em cada detalhe
eu vejo que você está lá, e aqui
dentro de mim.
O Tempo me conta suas histórias
e por isso você continua vivo,
como quando antes de sermos dois.
Suas mãos tocaram as minhas
e seus olhos me viram com amor.
Depois quando vivi,
procurei tanto em todos os olhos
um olhar semelhante ao seu
e muitos me reconheceram!
Muitos outros mais, porém, não se deram de beber.
Se eu pudesse, uma vez que fosse,
e por mais rápido que conseguisse,
mergulhar por um instante dentro do infinito,
nunca mais de lá sairia.
Preciso de toda intensidade e de toda autenticidade:
preciso de você.
Lembro do sonho que tivemos juntos
um dia e hoje, eu sei
- nada foi sonho
nada é real -
Eu sou você.
Você é eu.
26/11/97