sexta-feira, 17 de julho de 2009

COM O TEMPO


Eu cresci.
Agora sei o que quero e sou.
Lembro-me de quando eu era
desengonçado e instável.
Hoje vejo você e entendo.
Se você caminhar num ritmo ameno,
sua mente clareará.
Seu coração ficará tranquilo.
Respire sem pressa ou tensão.
Vou deixar
as portas e janelas abertas
como tenho feito.
E caso você queira equilíbrio,
pode se apoiar.
Me ofereço
por inteiro,
verdadeiro,
pra tudo.
Sempre.
17/07/09

terça-feira, 7 de julho de 2009

ESPADA


Todos são diferentes.

Quando eles são verdadeiros,
o são realmente.
Quando eles são falsos,
o são de verdade.
Mas quando elas são verdadeiras,
são falsas,
e quando são falsas,
são realmente verdadeiras.

Todas são iguais.

Não se pode confiar.
Fidelidade, quem a achará?
Por que a Verdade se esconde
entre a Mentira?
Por que ela se protege lá?
Por que o Amor
está de mãos dadas
com a dor e o ódio?
14/11/95

ENTREGA


A morte é
uma passagem
para outra vida.
Morte antes,
durante e depois:
corpo alma espírito.
Cuidado, o poeta
está morrendo.
Não só agora, e
também depois,
atentem para suas palavras.
Sofrimento, dor,
ilusão, amor.
Respiração:
roubo de ar
e suspiro.
Só agora
tenho uma visão geral
de todos que estão aqui.

O anjo vem com
o óbito atestado:
parada cardíaca.
TerNuraETerna diz
“Ele morreu porque
a alegria,
o amor,
o carinho,
os afagos,
o calor humano,
e os amigos
foram seqüestrados
da sua vida.”
Só que o demônio foi
o mais incisivo, com
meias verdades e meias palavras:
“Foi um espírito
de passividade
intelectual e emocional
que se apossou dele:
tudo estava lá
e ele não conseguia
alcançar.”
Tenho que admitir
que ninguém está errado.
O poeta morreu de
tudo isso,
numa clara manhã,
em cima da cama.
O ser noturno
que não se adaptou.
E que por isso
TerNura ainda
ouve sua voz
no íntimo de seu
coração, depois do
momento Ah!
A morte deixou
sua profunda cicatriz
no rosto da
lembrança.
A virgem entoa
um calipso inusitado
o tempo todo
até o fim da morte.
12/03/96

EXCELÊNCIA MORTAL


“Quero um túmulo bem bonito”,
você pode desejar,
mas é só um buraco fundo
igual ao de mingúem.
Vi um túmulo de pedras,
branco à beira do caminho
(conheço um velho longo em dias),
molhadas pedras pela névoa
da manhã que o sol não dissipou.
Ainda a morte
está em tudo na vida:
No sorriso amigo,
no falso falar.
Distintas tantas cores
quando o sol aponta ou desponta:
A vida é a morte,
e a morte é a vida.
As nuvens esparsas
me lembram defuntos
ao matinal repouso.
O movimento no céu
é o mesmo na terra.
Nuvens na terra: restos mortais
no céu cemitério.
E o deus astro desfila
distribuindo vida à terra.
Não, não tenho vida
(estou no céu);
Sinto o Amor danado,
santo, impuro e purificado,
retificado, ratificado
menino e maduro.
É duro, é difícil sentir.
Sinto, e sinto muito
mas diferente:
Quero paz e comunhão,
nesta ordem; e descanso.
Sou antiquado, duro, indomável,
não me entrego;
e romântico fácil.
Paz,
só quando comungar com a Morte.
O quente calor da terra e do Amor.
A Morte me quer por companhia.
Aonde vou, tenho notícias de mortos.
“É coisa da vida”, posso pensar,
mas ela não disfarça sua atração,
enquanto eu sim.
Porque não é só atração, é Amor, suave.
Quero um túmulo bonito
se possível,
mas quero um que seja simples
como fui, sou e serei.
16/12/96

... E SOL E LUA ...


Como do relógio o tic e tac,
Da ampulheta a areia,
E da vela a parafina,
A vida geme, esvai e evapora.

Qual o valor de um segundo?
Um dia, um mês, um ano?
Uma vida?

O carmesim que fez sinistro o dia,
Brotou morte da vida.
Maior que qualquer outra magia,
Sol a pino fez-se meia noite.

A um só tempo a natureza gemeu,
E geme angustiada
Esperando pela eternidade.
13/07/96

ESPELHO COMPLEXO IRRACIONAL


O espelho não é nada. É vazio, caos. Reflete a realidade, a verdade, o nada, o vazio e o caos. Solidão do mar de vidro e prata – barreira. É sincero – sou vazio e vejo isso nele – amigo. Se o homem fosse amigo, não teria inventado o espelho. É desconfiança, medo, egolatria. O limite entre o “certo” e o “invertido”. É alucinação coletiva. O nada refletindo o tudo. A verdade, a mentira. O claro, o escuro. O vazio, o cheio. O irreal, o real.
27/03/96

DOR


A Alma sente o amor.
Amor Incomportado.
Impossível.
Alma sente o desejo
de sentir o Amor dentro de si.
O Amor não se importa
com a Alma.
Muitas coisas os separam.
A Alma solitária
vê sua solidão,
vê a Solidão;
a Alma chora,
ou tenta chorar.
Não pode, pois não
lhe é permitido.
Ela tem que ser forte.
Está e é infeliz.
Criança infeliz,
a esperar em vão,
a mão quente, que
irá tirá-la, libertá-la do frio,
íntimo e constante
da Alma.
Alma musa, meiga,
inatingível aparentemente;
Esperando um mimo
qualquer que seja.
Só, Alma, só.
Sonha, louca,
com a companhia,
quando a companhia
não vem,
não existe.
Está beirando
seu limite,
não tendo limite,
não sabendo até
onde pode ir.
Sente dor,
querendo isso.
Cada vez mais, dor.
Ela está anestesiada.
Insensível e cauterizada.
Beira o abismo,
o Vale da Sombra
da Morte.
Buscando o Amor
onde sabe que ele não está.
Querendo-o achar.
Dependente dele,
d'outros.
Precisa de alguém,
repele a todos,
ama o amor.
Busca a Morte.
Suicídio.
12/04/96

PUREZA DO CORAÇÃO


+ Harmonia Harmônica
- Harmonia Desarmônica
+ Desarmonia Harmônica
- Desarmonia Desarmônica

A Pureza do Coração:

o afeto mais profundo;
o sentimento verdadeiro;
a emoção mais intensa.
que ele não seja egoísta,
que seja sincero,
que ele seja fiel,
e que para ser completo,
que ele possa superar o Tempo.
01/09/97

EMBALSAMADO


Uma segunda chance;
Duas segundas chances;
Três segundas chances.
Sempre preciso de mais, pois que
as tragédias são constantes.
E minha língua se apega
ao céu da boca,
seca e mumificada de tanto sal
e da inveja que me morde todo
o interior da boca, a mucosa.
Fui dissecar com os olhos
e ao invés, fui dessa pra pior.
Não balanço mais ao sabor dos ventos:
minhas raízes são por demais amargas e profundas.
E os ciganos estão indo embora
levando minhas mulheres e meus filhos
em pagamento da dívida que
resolvi assumir em lugar d’outrem.
Sou apenado por minha bondade
(como motivo exposto e aparente
quando o que é causa e razão
dos carrascos e algozes internos
é a maldade que ninguém vê,
a tristeza que aloja-se na suíte
dos sonhos e coração: inveja)
e não abro a boca, covarde,
como insinuação de coragem.
Não sou engraçado, não uso óculo,
não tenho ou mereço a Resposta.
Dissecado, com sal e raízes maléficas
amargas, sozinho, de novo.
21/11/03

ENCENAÇÃO


Recuperei a fé e
até que poderia viver sozinho.
Mas o que eu faria com a liberdade?
Senti-me mal
e pus meu coração em suas mãos.
Você apertou com medo de que ele escorregasse:
eu senti, você parece que não,
pois o entregou na mão
do meu amigo trajado de inimigo.
Ovelha disfarçada de lobo
pra mim, é lobo.
Que põe meu coração no peito e bate
longe de mim, perto de mim.
Fiz a minha parte, tudo que me cabia, e algo mais.
Só que algumas coisas não compensam
(o seu amor medroso, por exemplo)...
Você joga fora o amor que lhe dei.
Já sofri demais,
agora quero curtir o quanto sou precoce,
a criança madura dentro de todos nós.
O sobrenatural desceu ao natural.
Decorei números de placas
e elas mudaram:
de número, de caminho – não os vejo mais.
Tudo que cresce muda com as crises.
A bala que você gosta, comprei pensando em mim.
Vou dar uma dúzia de rosas (vermelhas) a mim por nós.
Nossas alianças de compromisso, vou usar as duas.
Pensei que houvesse mais
pela altura que a balança
me jogou no desequilíbrio.
Caí em pleno aberto
o mar me envolveu.
08/04/98

DIFÍCILS


Mudanças, variações.
O tempo escorre lentamente
para uma ampulheta,
sendo pingado por um conta-gotas;
Gigantes para pouca areia,
ou para pouca água.
E eu fico suspenso
nesse pouco tempo:
estranho, estrangeiro.

O povo está em crise:
prenúncio de revolução.
Tem-se a impressão
de que o tempo voa
com grandes asas.
A cúpula
não tem relógio.
Tenho a impressão
de que o tempo não passa.
Não tenho relógio.
São prenúncios de
mudanças de hábitos.
Trocar de vida pode doer,
ferir, sangrar.
Largar as muletas,
os sistemas de sobrevivência,
pode incomodar,
até atrapalhar.
Porque não estamos acostumados
com a nova rotina.
Mesmo que a velha seja nociva,
reclamamos.
Largar a solidão e o
silêncio de lado
é difícil.
Abraçar o amigo e o
diálogo parece ser ainda mais.
Eu sei ouvir,
compreender e
aconselhar, até.
Mas falar de mim...
(com um desconhecido é melhor.)

Viagem, viajem.
Vai, luz, e me leva.
Me tira desta arena
onde se digladiam
o touro e o toureiro:
O primeiro é o instinto,
masculino.
O segundo é a sensualidade,
feminina.
Ela o domina e faz
dele o que quer,
dentro da arena.
Vem,
e me leva pro vale;
Mesmo que eu não saiba
o que lá me espera.
Lá as coisas
começarão a mudar.
Já me libertei do
relógio opressor.

Mudanças, maturidade.
Os olhos são infantis
e vêem a beleza.
Passar dela pro desejo,
é um pulo.
Queria arrancá-los
e não mais ver;
Só com o coração sentir:
o amor não precisa dos olhos.
O desejo deles derruba
o amor quase todo.
A infantilidade minha
joga a maturidade por terra.
Vou lutar contra os olhos
para poder viver com eles.
Quero ver e sentir o que é belo.
23/02/96

quinta-feira, 2 de julho de 2009

DESERTOR


Estou no meio da loucura
e da inocência.
Loucura de querer alguém,
inocência de não conhecer ninguém.
Loucura de querer ser,
inocência de não saber ser.
Loucura de tentar viver,
inocência de não saber viver.
Estou pulando do barco,
esse balanço me enjoa.
Não me joguem salva-vidas,
vou aprender a nadar.
Sei que é possível morrer
de sede navegando
num mar de água doce.
Mas vou provar da água.
Vou chutar o balde;
Só balançar não basta.
Não adianta tentar me manter
no bom Caminho:
Todos temos o mal por dentro,
é só deixar crescer.
O bom, ao contrário,
só pode ser aprendido.
Sei de um e quero
conhecer o outro
lado da moeda.
Sair do meu minúsculo castelo
e ampliar meu mundo.

Na cidade grande, um som
como de um povo pentecostal
se faz ouvir nas ruas.
Mas são os vendedores
e camelôs gritando
nas esquinas cheias,
tentando ganhar mais que pão.
É...
Somos todos muito iguais,
unidos ou não,
de qualquer forma.
Homens e poetas.
Alma de poeta.
A Alma gosta de sofrer,
de sentir dor, de amar
e se sentir sozinha.
Uma poeta que encontrei
não se lia.
E eu, lendo-a,
mexeu-me algo
no meu interior.
Ela não era um espelho;
Poderia ser a água
de um rio.
Rio que vai pro lago
tranqüilo do castelo.
O furacão que vem
do deserto vai agitar
os ânimos.
Provocar uma tempestade
de brigas.
11/04/96