sexta-feira, 29 de maio de 2009

PELOS PELOS


Das memórias, vou cortar você;
Cortar meus pelos e cabelos que você gosta
e os que você não gosta,
porque todos carregam em si a lembrança
de você.
Rasparei a cabeça
as sombrancelhas
os cilios
axilas
virilha
e o que mais for preciso
pra cortar você de mim.
29/05/09

terça-feira, 12 de maio de 2009

ESPINHOS ROSAS


Evitando que tu me ferisses, me machucaste.
E a dor causada pelo mesmo,
parece doer mais que o ferimento que evitaras.
Pior que a dor de esquecer,
é a dor de não ter nada de que esquecer.
A dor da imaginação presente é pior
do que a dor da realidade ausente.
O nada vira tudo, porque
a tua ausência pode não ser eterna
e a tua presença pode não ser efêmera.
Não foste a primeira,
mas sim, a marcante e inesquecível.
A esperada tardia, e, oxalá,
a que não se deixará esperando...
para sempre.
Você. (Juntos)
04/04/95

LADOS LAGOS


Morro morto, adormecido vulcão.
Tempestuosa chuva, sereno lago.

A boca não tem sexo
quando devidamente barbeada
ou sem batom.
Como a natureza,
como nós.
O lado de cá
sempre fingindo.
O lado de lá
fingindo mais.
Eu sou a verdade
e tenho que me esconder.
Morro mudo
no lago a cova
da comida de piranhas.
Te mostro espinhos,
não as rosas
do amor estéril
em minhas entranhas.
Tenho saudade de ti
e me lembro de tudo
e tua presença distante
me consola, é real.
06/01/97

FINAIS E PRINCÍPIOS


O amor é a dor
que não dói ao doer,
que mesmo doendo não se sente
e sentindo não se sabe que se sente.
Dor, de amor.
Prazer, de amor.
Ódio, de amor.
Amor, ... ao amor.

Nos finais e princípios de todo cotovelo
sempre tem um amor, uma dor.

No ódio, o prazer e a dor... do, Amor!
07/02/95

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CON-VENCENDO


O homem do IML.
Um cadáver ouve rádio.
O rádio sem sintonia.
Soluço à caça de casa.
Asas para a saudade.
Lembranças com sal e pimenta.
Ninguém descobre o corpo que se cobriu sozinho.
Palavras me fogem,
e fujo delas.
Errei ao não confiar em ninguém?
– O amigo do meu amigo é meu amigo, e
o inimigo do meu inimigo é meu inimigo; ou
– O amigo do meu amigo é meu inimigo, e
o inimigo do meu inimigo é meu amigo; ou
– O amigo do meu inimigo é meu amigo, e
o inimigo do meu amigo é meu inimigo; ou
– O amigo do meu inimigo é meu inimigo, e
o inimigo do meu amigo é meu amigo???
O problema é que tudo está certo.
Mortos não reagem. – É fácil assim.
Não jogo pra perder –
mesmo sem regras –
estou ganhando sem jogar.
O tempo é meu melhor aliado.
Esperar que venha ao meu encontro
só porque lhe dirigi a palavra.
Não é nada demais falar de desquite, divórcio:
minha liberdade e nosso encontro.
Mas você me mata
enquanto componho minha obra
cá entre nós, nada convencional.
Dormir de roupa pesada.
Declaração de amor escrita.
Negar propina ideal.
Meu amor,
não fira com agressão
ao jogar para o alto a moeda
e não deixe que o rancor fique por cima.
O amor é mais polido
o afeto mais abaulado é.
Não fale mal pelas costas,
que atravessei seu corpo
e capturei a alma pelos olhos.
Belos olhos
olhai por nós.
14/04/98

CONVIVER


Estes são os nossos dias...

Os dias quentes
que fazem pressão sobre minha cabeça.
Tudo parece distante,
apertado, confuso, emergente, vital.
O sol exuberante;
A lua clara;
Estrelas eternas.

Tudo ganha vida.
Tudo vira esperança
quando chega o novo velho.
Desta vez, prometi a mim mesmo
não fazer promessa;
Apenas deixar o rio correr.
Então senti o cheiro da chuva
ao escutar meu coração:
“Ouça o que dizem as nuvens.”
Os trovões, os relâmpagos e os ventos;
todos têm seu preço.
Estou pagando muitos impostos.
Não esconda o curinga na manga.
Você pode mudar repentina e eternamente de rumo
mas só peço que seja verdadeiro comigo.
Você se fez de surdo.
Insiste em fingir que nada aconteceu,
só que o pior surdo é aquele que não ouve direito.
Eu vi antes que acontecesse.
Não precisa me ensinar de má vontade
descobri que posso aprender sozinho.
Aliás, estou usando suas armas -
você não percebe?
É que sou mais habilidoso.
As armas antigas
também tomei dos meus inimigos
que me afrontavam antigamente.

Minhas maiores tentações são
Prazer e Poder.
O meu caráter é maior
que um desejo ou ação,
mas só eu, só sei disso.
Todo dia vejo me transformar
de ebulidor a usina de energia.

Vi-nos no espelho
e a minha fraqueza
era a sua
enquanto sua força
estava em minhas mãos:

“Solidão.
Detesto estar sozinho.
Estou tal o ‘ponto escuro’,
que fica sujo
até o dia em que você
arranja alguém para lavar suas costas.
- Conversa comigo!!!

Não sei conviver com todos nem comigo.
Sou indesejado nas rodas de amigos:
quando chego, tudo se cala, todos vão embora.
Insisto conviver.
Minha alma vai para um mosteiro
e lá, além do mundo exterior
superar seus complexos,
desenvolver minhas capacidades
individuais no todo universal
- poeta, filósofo...
- amor, paixão...
Tudo em nós ecoa no todo universal!
Minha alma cria naftalina
(o cheiro do ano-novo).
Vocês me desgastam tanto...

Você espirra e
eu pego pneumonia.”

Eu vou deixar o rio correr
nestes dias quentes.
Pagar o preço e
Prosperar.
28/01/98

CRIPTO


A noite aguça os sentidos.
Sensibilidade obscura e confusa.
Visões, sonhos e fantasias.
A segurança e a proteção
presentes na realidade por um momento.
Uma presença próxima de mim:
lágrimas por solidão.
A ilusão que criei ao meu redor.
Meu sorriso escondedor,
minha face de máscara,
meu coração é transparente.
Sinto, sinto, sinto
muito, muito forte.
Essa força que me invade,
força que me domina,
força que é minha.
Tua e nossa força: fragilidade.
Transformados nós em força.
Não são antônimas ou opostas,
mas cara e coroa,
ou simplesmente moeda.
A face única e oculta da lua.
30/05/96

quarta-feira, 6 de maio de 2009

CEGO


Ainda não é chegada
a hora da verdade.
Minha incoerência
me embaraça demais.
Continuo embaçado
diante de meus olhos.
Te engano, me engano,
me oculto de ti;
me maquio pra mim.
Represento, mascarado,
dissimulo e disfarço.
Mas no final eu me traio
ao olhar objeto.
Meu olhar te fala
a verdade que sinto:
Emoções em roda,
calculismo não adquirido.
Vivo, não posso
me manter frio,
morto e alheio
aos estímulos;
Emotivo, fervendo.
Pra minha sorte
não sentes a chama
dos meus olhos
te queimando.
Um dia,
nossos olhos
se nos verão,
sem véus ou espelhos.
20/06/96

CHEIROS E SONS


Como pode esta bela música
invocar o diabo?
Belos perfumes e o ouro
lhe agradar?
Que pensa o pobre homem
nos delírios da ignorância?

A dor de imaginar nós dois
me parece pior que
a dor de esquecer-te.
Sinto mais prazer quando te elimino
por meus poros, líquido ou sólido
(nem quando te absorvi foi assim).
Minhas palavras
te inspiram melodias
que se tornam novo sentimento no coração
de nosso leitor-ouvinte.
Em minhas mãos aprendo o domínio
de usar velhas chaves poderosas.
Mas não quero mudar o teu coração,
enquanto não posso mudar o meu.
A coincidência nos põe cara a cara
mas teu coração está sitiado.
Então sento na cadeira
e espero
(com meu ouro, minha música e meus perfumes).
07/10/03

CH’I


Quando acordei, senti sua falta ao meu lado;
a cama ainda estava quente, e desarrumada.
Tive um sonho estranho, que me molhou todo.
Era verdade que eu fui um aborto
e vi você no meu lugar.
No meu banho, você se lembrou de mim,
e principalmente de que não gosto de que me olhem nu.
A barba foi feita antes
bem do jeitinho que eu gosto.
Eu uso o seu perfume
embora prefira senti-lo em você.
Por onde passo não há sensação de novidade
e os seus passos seguem comigo.
Eu quase que poderia sentir o calor da sua mão
se não fossem os anos e a distância que nos separam.
Mas em cada detalhe
eu vejo que você está lá, e aqui
dentro de mim.
O Tempo me conta suas histórias
e por isso você continua vivo,
como quando antes de sermos dois.
Suas mãos tocaram as minhas
e seus olhos me viram com amor.
Depois quando vivi,
procurei tanto em todos os olhos
um olhar semelhante ao seu
e muitos me reconheceram!
Muitos outros mais, porém, não se deram de beber.
Se eu pudesse, uma vez que fosse,
e por mais rápido que conseguisse,
mergulhar por um instante dentro do infinito,
nunca mais de lá sairia.
Preciso de toda intensidade e de toda autenticidade:
preciso de você.
Lembro do sonho que tivemos juntos
um dia e hoje, eu sei
- nada foi sonho
nada é real -
Eu sou você.
Você é eu.
26/11/97

terça-feira, 5 de maio de 2009

CAMUFLADO


O chão some dos meus pés.
Eu sumo de vista das pessoas.
A sombra e o escuro me encobrem
de noite e dia, lua a lua, sol.
Absorvo como esponja
a energia da morte que está no ar.
Vou me despojar dos esquemas
e sistemas.
Vou ser mais livre ainda para voar.
Nada sobrará dentro de mim.
Não acho ninguém onde deveria achar;
Sozinho canto querendo alguém,
escuto eco pensando em ninguém.
E viajo agora, sempre agora
sozinho agora e sempre.
(Nem eu me agüento. Quem agüentará?)
No tempo perfeito,
uma folha que roda.
É melhor rolar por baixo,
underground.
Joga-me na cruz,
condena-me,
mata-me com pedras,
se não tiveres culpa.
Também eu a tenho.
A morte eterna,
uma vida, uma ilusão.
O que rola nos esgotos.
Te ver me basta,
não quero mais que isto.
Uma mosca pousada em mim,
dois dedos e milhões:
Sensação de céu
no esgoto.
Só alimento minha ilusão,
minha vida, como moscas
em baixo tom.
(Não tenho garra.
Só tenho unhas, longas e curtas.)
20/12/96

CAMPO HARMÔNICO


Universo em harmonia.
Tudo em revolução elíptica
ao redor da cruz.
O príncipe cético;
O menino inocente.
Alguns atentos, outros indiferentes.
Não é possível achar o pecado.
Ele não está à órbita crucial,
ele mora lá dentro.
Do príncipe,
do menino,
d’alguns e d’outros.
Dentro da própria cruz.
Sangue versus glória.
A glória por fora.
Pecado navegando em glória.
Estrelas ou sóis conjugados.
Corpos pessoais no plano.
Afirmação e negação simultâneas,
de verdades e mentiras absolutas.
A razão do irracional, e o ele dela.
Luzes e lentes no buraco negro.
Espaço – Tempo – Limite.
Onisciência – Onipresença – Onipotência.
08/05/96

CAREZ


Como é bom alimentar
uma coisa, uma esperança nova.
Coisas velhas ficam para trás
e tudo se faz novo.
Ela me remete a, simultaneamente,
passado, presente e futuro.
O prazer chega perto
do horizonte distante,
que eu não podia ver,
agora perto de mim.
Tudo começa no fim do tempo.
Obrigando a desfrutar o máximo
do tudo no resto que sobra
do crepúsculo:
nem dia (trabalho)
nem noite (descanso).
E não há meio termo.
06/08/96

CARNAVAL


E então, o que me trazes de bom?
A tua alegria é porca:
força o riso e
rola a lágrima.
- Todas as emoções são quentes...
Até mesmo essa
sensualidade banal
com movimentos hipócritas.
A loucura coletiva cega:
ao povo, pão e circo,
a religião e o ópio!
Mas...
De repente, alguém vai embora
(deve ter consciência ou serviço pra amanhã)
a música pára
a chuva aumenta
a cerveja acaba.
Os bandos se dissolvem em outros
agora, caravanas.
Porque andar só à noite é risco.
As brincadeiras deram lugar ao medo
ainda fantasiado.
Porém não entendi
porque fiquei na rua até tarde
se estava deprimido e excitado...
Agitado, melhor dizendo.
Nunca entraste em crise?
Não te cansas dessa vida?
De serdes atraído pelos corpos
como joguete, de um lado para o outro
sem que a razão possa funcionar,
impor limites ou padrões?
Os olhos não se fartam de pedir mais
mas devo ter repelente no corpo...
Muita dor no coração.
É difícil lidar com o ser humano
no campo amoroso ou
amigo-romântico.
Todos são carentes,
mas não querem estragar a festa.
É triste sentir a inveja
da tua não ser a minha história.
Sonhei, mas não aconteceu
e dói no fundo do meu ventre
o que eu queria e que não aconteceu.

Se talvez alguém estivesse presente
eu talvez não estaria aqui ou seria assim.
Se talvez alguém estivesse ausente
eu talvez não teria permitido que
no meu coração brotasse a flor.
Se alguém talvez colhesse a flor
talvez meu coração não seria dois.

Meu ódio: meu amor: meu poder: meu prazer
(dor: embora qualquer permuta seja verdadeira).
Meu prazer: meu poder: meu amor: meu ódio.

Quando foi tempo de chorar
minhas lágrimas não estavam prontas
e o coração chorou sozinho.
São Pedro se comoveu
e pediu pra São João chorar também
pra consolar seu filho,
pra lavar-lhe a alma e os cabelos.
Deu-lhe das asas os anjos
e aconchegou-o a si.
A chuva estragou minha fantasia de felicidade
dos meus cabelos.
E vi que não sabias também
passar maquiagem.
Te deixei seguir teu rasto na lama
e acompanhei a andorinha
pelo céu (agora sem confetes e serpentinas)
até aquela linda luz violeta.
24/02/98

CONFIDENTE


A sua filha está linda:
a sobrancelha parece com a sua.
A sua lágrima eu segurei
e foi embora.
Eu queria ser pai,
eu quero menino.
Seu coração anda cansado.
Seu amor vai cada vez mais ocupado.
Sua jornada não é distraída.
É tudo (que muda) sempre igual.
Sóbrio eu vi
vazio na escuridão
da sombra que corre à minha frente,
na sombra que galopa por trás:
Não era ninguém
além de minha imaginação
querendo que você voltasse pra mim
(Ladrão não volta onde não houve crime).
É melhor ser caça que caçador
mas eu esqueço...
Sou discrepante a contra gosto.
Fico contrariado
quando os ventos não trazem notícias de longe.
E você me pergunta:
“- Você me ama?”
- Que é o amor?
Se ao menos eu ficasse
calmo, sereno e tranqüilo...
Só que é tudo sempre igual,
sempre aprendendo a mesma coisa:
não olhar,
ficar no tempo.
Contar a uma pomba
meus segredos sobre
Simetria Proporção Vitalidade e Força
Ritmo Tamanho e Acessórios
Beleza e Saúde
Perfeição

Entretanto, suas asas querem outros ares.
27/02/98

segunda-feira, 4 de maio de 2009

DESPEDIDA


Amor, aqui me despeço.
Não posso mais me acabar com, e por você.
Cansei de escrever você.
O Amor é lindo, contudo,
só que não muda;
E não variando, cansa, enjoa.
Assim me despeço
de papel e grafite
para lhe escrever poemas.
E antes que eu me esqueça
vou lembrar-me de lhe enterrar
bem no fundo
da memória da minha história.
Ambas as três, pequenas.
E vou arrancar as suas costas
das minhas mãos.
Arrancar seus beijos
da minha boca.
Arrancar o peso dos seus olhos
de cima de mim.
Tirar o sorriso
do seu rosto.
Tirar o cabelo
da sua boca.
Tirar-me da sua história,
onde nunca fui incluído.
E enterrar-nos lado a lado,
no adeus eterno da vida.
02/05/96

DESGOSTO


Tive um jantar à luz de velas
sem comida perecível.
Consumi sanduíche de festa
com prazo de validade vencido.
Se realmente quero combustível para alçar ao céu
não deve ser mais denso do que o que eu possa digerir.
Incensos, vinhos, queijos, azeite e sal;
Terra, lágrima, suor e sopro:
O sangue que escorre é sujo,
o céu que testemunhou é negro.
Eu invadi seu corpo e você, minha privacidade lânguida.
O desejo cai ao contato seu; rói, tomba e rola.
O gosto desgasta-se no presente próximo.
05/05/03

TÉDIO ADOLESCENTE EM QUEDA LIVRE


Ah, Vida.
Ah, Fascinação.
Ah, Fantasia.
Eh, Ilusão.
Eh, Lamento.
Eh, Solidão.
Ih, Loucura.
Ih, Doença.
Ih, Morte.
Oh, Noite.
Oh, Cemitério.
Oh, Sombras.
Uh, Sepulcro.
Uh, Domingo.
Uh, Sino roxo:
Spleen,
Spleen,
Spleen.
22/03/96