quinta-feira, 25 de junho de 2009

DE-Z-OITO


O espelho reflete a mesma imagem
Que de dez anos atrás:
Inocência e fraqueza,
Alienado e feio.

Quebro o espelho
E rasgo meu véu:
Me alieno da realidade,
Esquizofrênico (fico).

E choro sozinho
No meu escuro pequeno
Dentro de mim.

Nesse frio verão
A luz brilha escura
Pro cego aqui.
29/10/96

quarta-feira, 24 de junho de 2009

DESCANSAR


Hoje chuviscou de manhã.
Meus sonhos me perturbavam ainda.
Não tenho pesadelos,
não quero mais chorar.
O céu cinza
não me mostrou a lua minguante.
Levantei com o coração esquerdo;
meus olhos querem descansar,
ver, mas descansar.
Não vejo a beleza do céu,
ele sempre está lá.
Não me preocupo com as nuvens,
elas lavam meu corpo
e envolvem meus olhos.
Me sinto como sempre: vazio
e cansado.
Amanhã é Dia do Descanso.
Mas dia santo é dia de trabalho.
Uns diferentes dos outros,
mas tudo é enfado e carga.
Me sinto um grão no espaço,
não sei o que é piada,
não conheço a Graça.
Tudo isso eu já vivi,
de vez em quando eu me lembro
daquilo que não foi perdido.
Meu sentimento é fofo
e se encolhe sozinho
trombando nas paredes do meu quarto.
Desajeitado como elefante,
grande como rato.
Olhos inocentes como pombas,
perspicazes como águia.
Eu vôo, eu rastejo.
Deixo o tempo passar por mim (como flash)
tirando o que não presta,
aparando as arestas,
trazendo sedimentos.
Nada é certo.
Tudo é exato.
Com licença, tenho que pensar,
sentir.
E falar com minha alma.
Não há como concluir,
apenas resolver.
Agora.
28/02/97

terça-feira, 23 de junho de 2009

DEMONIZAÇÃO


Queria poder dizer de uma forma descomplicada
tudo que sinto por mim e por ti; pelo mundo.
Mas minha cabeça muda tanto e tão rápido
que o que era, agora já não é.
E me dizes que tenho o demônio no corpo!
Eu não sabia que era isso – se é que se pode definir algo que não conhece apenas pela manifestação do exterior.
Rebolei e não fiz por mal
mas a tua tatuagem e as marcas no teu corpo me excitam,
tanto quanto tua voz e o teu ritmo: você é um dos meus ares.
Demonizei meus olhos com minha própria escuridão
(não preciso de ajuda externa para isso).
Teu corpo não precisa ser o perfeito para eu desejar,
é apenas o que falta, o que gozo em ti.
Respeito teu templo, e tenho as chaves para abrir o meu.
Não somos escravos do desejo próprio ou alheio.
Me sinto nu; de olhos fechados ou com os ouvidos tampados,
por isso te contemplo a alma em todos os corpos.
Desafio-te a provar, pois traição não existe:
Se ficas comigo, estás comigo;
Se ficas com outro, estás também comigo.
Meu amor não tem posse ou liberalidade,
é naturalmente livre e desimpedido.
Mas não dê ouvidos ao teu coração.
Atenta para todo o teu ser: não te partas, não te dividas, não te fraciones.
Tem uma vontade e sê fiel a ela somente
Anjos e demônios não podem decidir por ti.
07/03/03

segunda-feira, 22 de junho de 2009

DA FONTE


Não bebo dessa fonte.
A água escura dos seus olhos
não mata a minha sede
barrenta de água podre.
Então embora beba
sua água azul,
pode não ser tão belo
o corte do azulejo,
a ilusão de que é puro, limpo,
inocente, e santo.
Como via os cinza olhos de gato desmamado,
que sem a proteção do sol
se renderam, se entregaram,
talvez de medo mas apenas
era tempo de olhar, sugerir
sugestionar e influenciar
para que algum dia
seu coração amadurecesse
ao fel maquiavélico
para ser um com os olhos.
Como fui e não fui engolido,
tragado pela sede de saber
e morto pela sede de fazer,
não tive seu corpo a serviço de meus olhos.
Dessa fonte não bebo:
vejo verde o lodo
que se acumula
na torpeza do seu ser,
que quanto mais perto chega
mais longe quero estar.
Nem adianta me mostrar os caninos
que meu sangue não é pra você.
Prefiro mel de açúcar de beterraba sintética.
Posso até me lambuzar de bombom
(doce agora e amargo sem escovar os dentes)
pois meu sangue ralo precisa de reforço.
São todos permanentes
(amigos do trocador e do motorista);
eu, passo.

Só queria que você olhasse para trás
e banisse o vazio que está dentro de mim.
Pena que você não veja
que eu sou, dentro de você
e a tristeza é você em mim.
Entulhe essa fonte.
Eu queria dizer,
mas não consigo falar.
16/06/98

CRIAÇÃO


O absurdo da criação:
A criatura parecer
com o criador -
Um egocentrismo caro:
matando-a,
mata-se ao
deus que a criou.
Ela não pode viver
no mundo dele
e nem o contrário.
Não sabem, contudo,
que sua dor é a mesma;
Que estão ligados
pelo amor da criação
e pela dor
da frustração:
Cada qual no seu
canto chorando
a ausência do outro,
e exigindo direitos
que não foram eleitos.
Quando a vida foi
criada, a morte
também veio -
uma vida, várias mortes.
A dor é a mesma
que une as duas pessoas
feitas separadas.
Belo e Caricatura.
São iguais,
necessidades iguais,
dores iguais,
ódios e amores iguais.
Criador e Criatura.
É a mesma coisa.
O mesmo frio fim
para os dois,
da agitada vida
(Ela se rendendo
e ele se doando),
para acabar
com os sofrimentos
que os eternos
iam penando.
Um último grito
da criatura -
ele se calou,
não tinha e
renegou o direito.
Fez o que
achava que era certo.
Encerrou a vida
sob a morte.
Pelos séculos dos séculos
o segredo permanecerá
debaixo das ondas
do mar.
14/03/96

COMPRAR FEITO


O que foi feito de minha vida?
O que fizemos com as nossas?
O que você pensou?
O que você fez?
O Tempo simplesmente aconteceu!
Você estava preparado?

Como é bom voltar ao trabalho
na rotina normal, sem feriado.
O caos no interior de um leprosódromo
é inimaginável.

Há algumas noites
você me viu.
Falei dos meus olhos?
Bom seria que sem falar...
Eu não precisasse fazer,
só comprar feito.
16/06/98

quarta-feira, 17 de junho de 2009

CÁLIX MOXTARDA


Minhas mãos são Frias.
Frias buscam um Corpo.
Corpo para aquecê-Las.
Frias para tocar.
Corpo para sentir e ser sentido,
dar e receber... algo.
Não apenas um Corpo
sem vida, morto;
mas Você.
Corpo não apenas para sentir.
Você para amar.

Desejo, cale-se:
você quer qualquer corpo.
Afeição é quem sabe o que faz,
mas não consigo dominá-Lo.
Ele tem olhos para todos,
só não sabe que não é assim
tão fácil.
Ela se resguarda
e faz muito bem:
muitos são vistos,
poucos têm coragem
(entre os quais sou um).

Venha.
Sempre estive sozinho
e agora sei
que preciso de alguém:
presença, confraternização,
compartilhar, participação com,
intimidade, amizade,
camaradagem – comunhão.
Larga os “pode” e “não pode”
e aqueça as Frias;
me faça um carinho.
Com sua e seu:
presença presente.
25/12/95

terça-feira, 16 de junho de 2009

VIOLETA ROXA


Me encontro solitária em meio à multidão.
Eu sou a violeta roxa que perfuma os ares.
Que sustento da seiva alimento recebe.
Que o jardim brilhante embelece
com as cores vivas do meu sangue.
A mão que afaga é a mesma que corta
da vida a flor e a torna morta.
A mão que corta em alegria própria
afaga alegre e despreza a roxa.
E caio no chão triste,
caio alto, frio, distante,
solitária fico e sou pisada.
Não consigo evitar.
Meu perfume fede,
a cor brilha indicando perigo e
mesmo assim me usam.
Despetalam-me pelo chão,
Pela rua.
Eu.
19/11/96

segunda-feira, 15 de junho de 2009

SUAVE


Vejo suas qualidades,
Vejo meus defeitos,
E me deprimo,
Vôo rasante para a depressão.
Você.
Não tive infância.
Não estive presente nela.
Ninguém esteve presente.
Continuo sozinho em mim.
Eu.
Queria, quero você; eu.
Queria, quero força, proteção.
Queria, quero, a infantilidade.
A alva inocência para sempre.
Desejo.
Preciso do seu braço
a me amparar.
Da sua mão a me
ensinar, ao Menino.
Raiz.
Só esteja perto de mim
e me abrace.
Aqueça o meu corpo
azul de frio com o seu,
vermelho e quente.
Nunca se separe de mim.
Roxo.
A solidão dói demais,
dói sozinha, a sós.
Não tenho lágrimas para chorar
- acabaram, esgotaram
antes da hora certa, e
me deixaram na mão, ou a pé.
Morno, e lento,
vômito, amargo.
09/04/96

domingo, 14 de junho de 2009

DE LONGE


A dor é proporcional à perda,
mais dói quanto menos se tem.
Muito pouco e muito tarde.
Tudo dói.
Mas não tenho força para o suicídio.
O mal que parece tão longe
na verdade está dentro de mim,
me fornece energia de vida
e alegria de viver.
Faz-me sentir que só o presente
é que realmente importa.
Deve-se levar tudo a sério
com a máxima intensidade,
enquanto não acaba.
A dor por dentro e por fora,
o amor e o carinho.
Detesto o instinto.
Novamente alguém sintetiza tudo
em si.
Malícia, amizade, amor e
Tudo.
Só não me amasse e jogue fora
ou não caia na rotina.
23/02/97

sexta-feira, 12 de junho de 2009

FACETAS


Tenho medo do meu coração
por não conhecê-lo.
Não sei o que ele quer.
E tenho medo disso
que não conheço.
Já tentei transformá-lo
em pedra,
mas não tem jeito.
Os olhos ardem,
por baixo da máscara
fria e controlada.
Estou com vertigem
de tanto rodopiar
num poderoso turbilhão
que me deixa tonto.
Já vi muitos lugares
diversas vezes.
E não parei pra conhecer.
Estou
confuso,
frágil,
indeciso,
indefeso,
carente,
amando,
sozinho,
frio,
cego,
pobre,
miserável,
desafeiçoado,
nu,
esquisito,
plebeu,
irreversível,
andarilho,
perdido.
18/04/96

CARTA DE UM CAVALO A SEU CAVALEIRO


Um guerreiro às vezes precisa de amparo do vento frio cortante na noite solitária e de uma espada por onde possa chorar as lágrimas vertentes do sangue amargo e morno do Destino... ou da Dor.
Por que viver quando só se atrapalha outras vidas? A morte torna doce a alma que nos breves momentos seguintes será lembrada, e por muito tempo depois, esquecida.
Que diferença faz, se nunca foi desejada? Companhia de si mesma e do seu Guerreiro solitário a guiá-lo pelo vale da sombra. Suporta tudo. Aprende com a vida o modo ser a morte, a água, o fogo, a terra, o ar; a Luz e as Trevas. Com seu coração corta a própria espada. Com a língua, dilacera o próprio corpo. Vive a velhice na infância; após a puberdade, rasteja e vegeta. O corpo natural acabou, sua mente continua aqui, enquanto se lembram dele. De quem foi um dia, não! De quem ele é.
De quem é? De tudo e de todos. Amou, como sempre amou. Chorar, já derramou o bastante. Por mais que quisesse ser tocado, em vão é dedicar carinho a quem não dá afeto, esperando receber o mesmo em troca. Obtém-se falsa esperança, desamor, ilusão.
Quisera sempre amar, sem querer mais do que amar sempre. Mas é difícil, você sabe. Faísca e GLP. É apenas a faísca que não se confunde, se domina, e não se funde ao misturar. Como combustível preso e detonado, ele.
A alma quer ser tocada pela Morte. A Dor é uma mulher caprichosa... O Destino é deus de ninguém. Faísca e Treva. GLP cavalo.
16/06/98

quinta-feira, 4 de junho de 2009

COMUM


É tudo comum.
Nos dias comuns
As pessoas comuns
Fazem coisas comuns
De jeitos comuns
Para finalidades comuns
Tendo alegrias comuns
Por tempos comuns.
Olhares comuns
Captam olhos comuns
Olhando coisas comuns
Na multidão comum
Das solidões comuns
Do homem comum
Precisando de um amigo comum
Numa hora comum
De tristeza comum
Da frustração comum
Do fim comum
De um amor comum.
Eu como um.
Você come um.
Não, eu não quero
Ser como um.

Quero que
Num dia especial
Uma pessoa especial
Faça uma coisa especial
De um jeito especial
Para um fim especial
Tendo uma alegria especial
Por um tempo especial.
Quero olhares especiais
Captando olhos especiais
Olhando coisas especiais
Na multidão especial
Da companhia especial
Do homem especial
Compartilhando com um amigo especial
Numa hora especial
A alegria especial
Do sucesso especial
Do começo especial
De um amor especial.

Mas então,
Tudo será comum.
Porque o especial
O deixará de ser,
E passará a ser
Comum.
Como o comum
Que havia antes
Do especial.
01/05/96