O espelho reflete a mesma imagemQue de dez anos atrás:Inocência e fraqueza,Alienado e feio.Quebro o espelhoE rasgo meu véu:Me alieno da realidade,Esquizofrênico (fico).E choro sozinhoNo meu escuro pequenoDentro de mim.Nesse frio verãoA luz brilha escuraPro cego aqui.29/10/96
Hoje chuviscou de manhã.Meus sonhos me perturbavam ainda.Não tenho pesadelos,não quero mais chorar.O céu cinzanão me mostrou a lua minguante.Levantei com o coração esquerdo;meus olhos querem descansar,ver, mas descansar.Não vejo a beleza do céu,ele sempre está lá.Não me preocupo com as nuvens,elas lavam meu corpoe envolvem meus olhos.Me sinto como sempre: vazioe cansado.Amanhã é Dia do Descanso.Mas dia santo é dia de trabalho.Uns diferentes dos outros,mas tudo é enfado e carga.Me sinto um grão no espaço,não sei o que é piada,não conheço a Graça.Tudo isso eu já vivi,de vez em quando eu me lembrodaquilo que não foi perdido.Meu sentimento é fofoe se encolhe sozinhotrombando nas paredes do meu quarto.Desajeitado como elefante,grande como rato.Olhos inocentes como pombas,perspicazes como águia.Eu vôo, eu rastejo.Deixo o tempo passar por mim (como flash)tirando o que não presta,aparando as arestas,trazendo sedimentos.Nada é certo.Tudo é exato.Com licença, tenho que pensar,sentir.E falar com minha alma.Não há como concluir,apenas resolver.Agora.28/02/97
Queria poder dizer de uma forma descomplicadatudo que sinto por mim e por ti; pelo mundo.Mas minha cabeça muda tanto e tão rápidoque o que era, agora já não é.E me dizes que tenho o demônio no corpo!Eu não sabia que era isso – se é que se pode definir algo que não conhece apenas pela manifestação do exterior.Rebolei e não fiz por malmas a tua tatuagem e as marcas no teu corpo me excitam,tanto quanto tua voz e o teu ritmo: você é um dos meus ares.Demonizei meus olhos com minha própria escuridão(não preciso de ajuda externa para isso).Teu corpo não precisa ser o perfeito para eu desejar,é apenas o que falta, o que gozo em ti.Respeito teu templo, e tenho as chaves para abrir o meu.Não somos escravos do desejo próprio ou alheio.Me sinto nu; de olhos fechados ou com os ouvidos tampados,por isso te contemplo a alma em todos os corpos.Desafio-te a provar, pois traição não existe:Se ficas comigo, estás comigo;Se ficas com outro, estás também comigo.Meu amor não tem posse ou liberalidade,é naturalmente livre e desimpedido.Mas não dê ouvidos ao teu coração.Atenta para todo o teu ser: não te partas, não te dividas, não te fraciones.Tem uma vontade e sê fiel a ela somenteAnjos e demônios não podem decidir por ti.07/03/03
Não bebo dessa fonte.A água escura dos seus olhosnão mata a minha sedebarrenta de água podre.Então embora bebasua água azul,pode não ser tão beloo corte do azulejo,a ilusão de que é puro, limpo,inocente, e santo.Como via os cinza olhos de gato desmamado,que sem a proteção do solse renderam, se entregaram,talvez de medo mas apenasera tempo de olhar, sugerirsugestionar e influenciarpara que algum diaseu coração amadurecesseao fel maquiavélicopara ser um com os olhos.Como fui e não fui engolido,tragado pela sede de sabere morto pela sede de fazer,não tive seu corpo a serviço de meus olhos.Dessa fonte não bebo:vejo verde o lodoque se acumulana torpeza do seu ser,que quanto mais perto chegamais longe quero estar.Nem adianta me mostrar os caninosque meu sangue não é pra você.Prefiro mel de açúcar de beterraba sintética.Posso até me lambuzar de bombom(doce agora e amargo sem escovar os dentes)pois meu sangue ralo precisa de reforço.São todos permanentes(amigos do trocador e do motorista);eu, passo.Só queria que você olhasse para tráse banisse o vazio que está dentro de mim.Pena que você não vejaque eu sou, dentro de vocêe a tristeza é você em mim.Entulhe essa fonte.Eu queria dizer,mas não consigo falar.16/06/98
O absurdo da criação:A criatura parecercom o criador -Um egocentrismo caro:matando-a,mata-se aodeus que a criou.Ela não pode viverno mundo delee nem o contrário.Não sabem, contudo,que sua dor é a mesma;Que estão ligadospelo amor da criaçãoe pela dorda frustração:Cada qual no seucanto chorandoa ausência do outro,e exigindo direitosque não foram eleitos.Quando a vida foicriada, a mortetambém veio -uma vida, várias mortes.A dor é a mesmaque une as duas pessoasfeitas separadas.Belo e Caricatura.São iguais,necessidades iguais,dores iguais,ódios e amores iguais.Criador e Criatura.É a mesma coisa.O mesmo frio fimpara os dois,da agitada vida(Ela se rendendoe ele se doando),para acabarcom os sofrimentosque os eternosiam penando.Um último gritoda criatura -ele se calou,não tinha erenegou o direito.Fez o queachava que era certo.Encerrou a vidasob a morte.Pelos séculos dos séculoso segredo permanecerádebaixo das ondasdo mar.14/03/96
O que foi feito de minha vida?O que fizemos com as nossas?O que você pensou?O que você fez?O Tempo simplesmente aconteceu!Você estava preparado?Como é bom voltar ao trabalhona rotina normal, sem feriado.O caos no interior de um leprosódromoé inimaginável.Há algumas noitesvocê me viu.Falei dos meus olhos?Bom seria que sem falar...Eu não precisasse fazer,só comprar feito.16/06/98
Minhas mãos são Frias.Frias buscam um Corpo.Corpo para aquecê-Las.Frias para tocar.Corpo para sentir e ser sentido,dar e receber... algo.Não apenas um Corposem vida, morto;mas Você.Corpo não apenas para sentir.Você para amar.Desejo, cale-se:você quer qualquer corpo.Afeição é quem sabe o que faz,mas não consigo dominá-Lo.Ele tem olhos para todos,só não sabe que não é assimtão fácil.Ela se resguardae faz muito bem:muitos são vistos,poucos têm coragem(entre os quais sou um).Venha.Sempre estive sozinhoe agora seique preciso de alguém:presença, confraternização,compartilhar, participação com,intimidade, amizade,camaradagem – comunhão.Larga os “pode” e “não pode”e aqueça as Frias;me faça um carinho.Com sua e seu:presença presente.25/12/95
Me encontro solitária em meio à multidão.Eu sou a violeta roxa que perfuma os ares.Que sustento da seiva alimento recebe.Que o jardim brilhante embelececom as cores vivas do meu sangue.A mão que afaga é a mesma que cortada vida a flor e a torna morta.A mão que corta em alegria própriaafaga alegre e despreza a roxa.E caio no chão triste,caio alto, frio, distante,solitária fico e sou pisada.Não consigo evitar.Meu perfume fede,a cor brilha indicando perigo emesmo assim me usam.Despetalam-me pelo chão,Pela rua.Eu.19/11/96
Vejo suas qualidades,Vejo meus defeitos,E me deprimo,Vôo rasante para a depressão.Você.Não tive infância.Não estive presente nela.Ninguém esteve presente.Continuo sozinho em mim.Eu.Queria, quero você; eu.Queria, quero força, proteção.Queria, quero, a infantilidade.A alva inocência para sempre.Desejo.Preciso do seu braçoa me amparar.Da sua mão a meensinar, ao Menino.Raiz.Só esteja perto de mime me abrace.Aqueça o meu corpoazul de frio com o seu,vermelho e quente.Nunca se separe de mim.Roxo.A solidão dói demais,dói sozinha, a sós.Não tenho lágrimas para chorar- acabaram, esgotaramantes da hora certa, eme deixaram na mão, ou a pé.Morno, e lento,vômito, amargo.09/04/96
A dor é proporcional à perda,mais dói quanto menos se tem.Muito pouco e muito tarde.Tudo dói.Mas não tenho força para o suicídio.O mal que parece tão longena verdade está dentro de mim,me fornece energia de vidae alegria de viver.Faz-me sentir que só o presenteé que realmente importa.Deve-se levar tudo a sériocom a máxima intensidade,enquanto não acaba.A dor por dentro e por fora,o amor e o carinho.Detesto o instinto.Novamente alguém sintetiza tudoem si.Malícia, amizade, amor eTudo.Só não me amasse e jogue foraou não caia na rotina.23/02/97
Tenho medo do meu coraçãopor não conhecê-lo.Não sei o que ele quer.E tenho medo dissoque não conheço.Já tentei transformá-loem pedra,mas não tem jeito.Os olhos ardem,por baixo da máscarafria e controlada.Estou com vertigemde tanto rodopiarnum poderoso turbilhãoque me deixa tonto.Já vi muitos lugaresdiversas vezes.E não parei pra conhecer.Estouconfuso,frágil,indeciso,indefeso, carente,amando,sozinho,frio,cego,pobre,miserável,desafeiçoado,nu,esquisito,plebeu,irreversível,andarilho,perdido.18/04/96
Um guerreiro às vezes precisa de amparo do vento frio cortante na noite solitária e de uma espada por onde possa chorar as lágrimas vertentes do sangue amargo e morno do Destino... ou da Dor.Por que viver quando só se atrapalha outras vidas? A morte torna doce a alma que nos breves momentos seguintes será lembrada, e por muito tempo depois, esquecida.Que diferença faz, se nunca foi desejada? Companhia de si mesma e do seu Guerreiro solitário a guiá-lo pelo vale da sombra. Suporta tudo. Aprende com a vida o modo ser a morte, a água, o fogo, a terra, o ar; a Luz e as Trevas. Com seu coração corta a própria espada. Com a língua, dilacera o próprio corpo. Vive a velhice na infância; após a puberdade, rasteja e vegeta. O corpo natural acabou, sua mente continua aqui, enquanto se lembram dele. De quem foi um dia, não! De quem ele é.De quem é? De tudo e de todos. Amou, como sempre amou. Chorar, já derramou o bastante. Por mais que quisesse ser tocado, em vão é dedicar carinho a quem não dá afeto, esperando receber o mesmo em troca. Obtém-se falsa esperança, desamor, ilusão.Quisera sempre amar, sem querer mais do que amar sempre. Mas é difícil, você sabe. Faísca e GLP. É apenas a faísca que não se confunde, se domina, e não se funde ao misturar. Como combustível preso e detonado, ele.A alma quer ser tocada pela Morte. A Dor é uma mulher caprichosa... O Destino é deus de ninguém. Faísca e Treva. GLP cavalo.16/06/98
É tudo comum.
Nos dias comuns
As pessoas comuns
Fazem coisas comuns
De jeitos comuns
Para finalidades comuns
Tendo alegrias comuns
Por tempos comuns.
Olhares comuns
Captam olhos comuns
Olhando coisas comuns
Na multidão comum
Das solidões comuns
Do homem comum
Precisando de um amigo comum
Numa hora comum
De tristeza comum
Da frustração comum
Do fim comum
De um amor comum.
Eu como um.
Você come um.
Não, eu não quero
Ser como um.
Quero que
Num dia especial
Uma pessoa especial
Faça uma coisa especial
De um jeito especial
Para um fim especial
Tendo uma alegria especial
Por um tempo especial.
Quero olhares especiais
Captando olhos especiais
Olhando coisas especiais
Na multidão especial
Da companhia especial
Do homem especial
Compartilhando com um amigo especial
Numa hora especial
A alegria especial
Do sucesso especial
Do começo especial
De um amor especial.
Mas então,
Tudo será comum.
Porque o especial
O deixará de ser,
E passará a ser
Comum.
Como o comum
Que havia antes
Do especial.
01/05/96