
Não bebo dessa fonte.
A água escura dos seus olhos
não mata a minha sede
barrenta de água podre.
Então embora beba
sua água azul,
pode não ser tão belo
o corte do azulejo,
a ilusão de que é puro, limpo,
inocente, e santo.
Como via os cinza olhos de gato desmamado,
que sem a proteção do sol
se renderam, se entregaram,
talvez de medo mas apenas
era tempo de olhar, sugerir
sugestionar e influenciar
para que algum dia
seu coração amadurecesse
ao fel maquiavélico
para ser um com os olhos.
Como fui e não fui engolido,
tragado pela sede de saber
e morto pela sede de fazer,
não tive seu corpo a serviço de meus olhos.
Dessa fonte não bebo:
vejo verde o lodo
que se acumula
na torpeza do seu ser,
que quanto mais perto chega
mais longe quero estar.
Nem adianta me mostrar os caninos
que meu sangue não é pra você.
Prefiro mel de açúcar de beterraba sintética.
Posso até me lambuzar de bombom
(doce agora e amargo sem escovar os dentes)
pois meu sangue ralo precisa de reforço.
São todos permanentes
(amigos do trocador e do motorista);
eu, passo.
Só queria que você olhasse para trás
e banisse o vazio que está dentro de mim.
Pena que você não veja
que eu sou, dentro de você
e a tristeza é você em mim.
Entulhe essa fonte.
Eu queria dizer,
mas não consigo falar.
16/06/98

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