domingo, 29 de março de 2009

ANO


Hoje é tempo.
Tempo de arrancar o amor plantado.
Tempo de queimar o amor ceifado.
Tempo de destruir o amor erigido.
Tempo de quebrar os espelhos.
Tempo de rasgar os véus.
Tempo de matar seus olhos mortos.
Tempo de cear.
Coma das minhas carnes.
Beba do meu sangue.
Coma do meu espírito.
Beba da minha alma.
A noite hoje é de luto.
Todos são dias de morte.
Cálix de amargura.
Temperado de orgasmo.
Mas eu não gozo.
Espero por você, me delicio no seu prazer.
Eu já conhecia seu corpo
Por experiência própria.
E descobrir o seu corpo
É fascinante, excitante. É...
Mas acabou.
O tempo acabou.
O Feliz Ano Novo antigo morreu.
Despeça-se das alegrias
Que ele lhe proporcionou.
E das tristezas também.
Outras coisas virão.
Não são novas,
Mas as mesmas coisas velhas
Vão acabar e começar.
Morrem umas.
Nascem outros.

O espero no futuro!
31/12/96

AMOR


Mal gosto de maltratado ser.
Pela primeira vez eu disse que estou bem;
e do meu lado avançam as crises,
eu suportando a barra dos problemas.
Ninguém é de ferro, graças a Deus
- Não maltrate o coração,
pare de rotular as pessoas -
Queira ou não,
elas são parte de você
(você não é parte de mim).
Em tempo eu pude ver e comprovar:
o Amor se cala,
você não;
Ele se doa,
você me usa e me suga.
Ele não é falso e cuida por mim,
você é, e não.
Por quê então continuar se Ele não existe?
Em mim por você e de você por mim?
Só volto a minha palavra uma vez -
ainda acho por quem faça mais,
porém garanto que não é você.

Não será um erro o homem ter um coração?
Ou o erro está em deixá-lo partir?
Ele foi, voltou,
e não posso mais voar
(meu corpo está impregnado de petróleo -
eh, desgraça ecológica!).
Arrancaram minhas pilhas Duracell
após mais de doze horas do maior prazer do mundo.
Caí na depressão,
sem vontade de xingar,
sem vontade de comer;
Eu podia morrer aqui mesmo
no meio do meu erro.
Aprendi minha maior lição de Amor:
quando Alguém me olha,
vê além das minhas cicatrizes;
Me enxerga com Amor.
Então não sei o que é água ou o que é vinho
se é o novo o velho ou a de sempre.
E eu choro ao sentir
que só Um tem este Amor.
22/03/98

ALGUÉM


Sabe,
Eu fico tão deprimido
Quando olho pra mim...
Essa auto-visão solitária,
Parece por cima,
Mas na verdade, olho-me
É de baixo para cima.
Meus defeitos são maiores
Do que eu.
Minha solidão e necessidade de alguém,
De afetividade, de amor,
São maiores do que eu.
Cada vez fico MENOR, Menor, menor...
Até sumir, me afogar
No meu vazio e dor.
Agora,
Olhando pro alto,
Te vejo assim também,
Absorto em tua dor e vazio.
Se eu te ajudasse
A sair da tua dor,
Teria primeiro que sair da minha.
Nós dois juntos,
Tiraríamos mais um.
E assim sucessivamente,
Indefinidamente...
Mas meu egoísmo
É tão, tão grande,
Que não te olho.
Ficamos atolados
Até que
Alguém
Venha nos salvar disso,
Venha nos curar disso,
Venha nos tirar de nós
E nos pôr ao Seu lado, de pés.
13/06/96

sábado, 28 de março de 2009

ALEXENDER MIGUEL


Quero seu corpo desnudado,
os seus segredos desnudados.
Quero meu desejo saciado
de sangue, o seu corpo aos meus pés:
meu Id precisa do sexo,
meu Ego quer afeto e toque,
o Superego quer uma alma doce,
uma casa estável, e
uma velhice longa.
Justamente porque sou limitado
eu posso fazer tudo.
E por ser onipotente, não posso me transformar.
Deus não sabe não ser Deus.
Não quero sua essência;
Quero seu corpo sua força seus olhos sua pele seus pêlos suas coxas seus artelhos seus joelhos suas panturrilhas sua virilha sua barriga seus glúteos seu abdome seu tórax suas costas seus bíceps seus tríceps seus pulsos suas mãos seus cabelos sua cabeça.
Você não é o anjo que eu imaginei.
É meu pior pesadelo, um olhar que não sustento,
Uma maldade que tenho medo que me invada.
Minha alma é sensível ou quase;
E você não vai me suicidar
do jeito que você me olha
do jeito que você me encosta.
Seu cheiro de cuba com perfume
me captura à sedução
e viro bicho, cativo,
rei das selvas pronto a rugir.
21/10/97

segunda-feira, 23 de março de 2009

ÁGUA


Sinto o gosto insípido
Que vem depois da euforia;
A amarga sensação
De derrota e fracasso.

Nesse espelho incolor
Vejo minha fraqueza e covardia.
Eu inodoro fedendo
Lágrimas de arrependimento

Por não ter feito,
Por querer ter feito,
Era só estender a mão!...

Mas me larguei
Onde estou agora.

E depois de engolir a comida
O gosto desce com ela.
Minha língua se alterou.
Só não fui tão ferido
Porque fracassei.

Estou mais vazio ainda
Do que antes.
Esperança agora
Morreu e enterrou
Na terra seca
Do meu coração, deserto.
O sol escaldante,
Os ventos vêm e vão
Levando o que restou:
Nada, rocha.
Lençol de água
Que lava e leva
Os sentidos de mim.
A razão de mim.
E você de mim.

Tempo.
Vento que vem e vai
Levando água.
08/07/96

domingo, 22 de março de 2009

A.•.F.•.G.•.


Quando o ano novo chegar (feliz),
Sei que mais uma página de nossa história passará.

Felizmente, não foi de todo perdida;

Sinto que consegui reparar alguns erros,
E também, construímos alguma coisa
Que certamente marcará, pelo menos,

A minha existência: a nossa amizade.
Somos livre, eu e tu.
Não é possível amarrar-te a mim

Nem me amarrar a ti.

Mas se um dia sentiste o meu amor

Ou se me amaste,

A liberdade vai trazer-te de volta
Para buscares o que deixaste

Ou para trazeres o que levaste.
Então assim, a liberdade se tornará cativa,
Se for mais forte o Amor.
Eu te amo.
Aquele que semeou

Certamente voltará para colher.
Se foi afeto, amor.
Se foi desprezo, ódio.
Semeaste...
E estás colhendo.
08/01/95

segunda-feira, 16 de março de 2009

A MEMÓRIA DE PELE NA PELE:


Não me faça, não me deixe chorar;
Não me olhe, não vá longe de mim;
Não me toque, não se oponha a isso.
A surpresa é o que perpetuou-se
no tempo.
O milagre é o que ocorreu
paulatinamente.
Qualquer um que passe,
tem o seu lugar.
Ou você ama a todos, ou ninguém.
Não vejo o porquê dessa sua distinção,
do seu preconceito, da sua discriminação.
Pouco importa ou deveria
se estive com um amigo ontem
- quem dera tivesse amigos
como você.
Pensei que tudo fosse igual, afinal,
todos são iguais perante Deus...
É, é que esqueci que não sou Deus.
Não diga nunca, porque o
pra sempre acaba.
O ser humano tem limites.
Tudo vira dúvida
quando você pergunta.
Me acostumei a ter respostas
para tudo que hoje questiono
como o que foi pergunta ontem.
Não sei de palavras bonitas e
pior é não acreditar em milagres
(é o vício!).
Um menino fez o sinal da cruz
com os dedos em figuinha
quando viu a estrela branca
rasgando o céu com a cauda de fumaça
e lampejos vermelhos.
Tomara não fique com a infância incompleta,
com o coração vazio
e não simplifique suas necessidades básicas
em sexo, quando for crescido.
Os dedos esquecem
que um dia tocaram em corpos
e que foram felizes.
Não me mostre seu corpo;
Não me provoque;
Não me faça chorar.
14/03/98

A MÃO


A mão aberta, estendida, o dedinho levantado;
É quase isso, está quase certo.

O peito nu não mente, o coração está descoberto.
A harmonia simples suspensa no ar parado
Traduz o sentimento, as sensações,
O que eu queria, e não acontece, e não se foi.

Emoções (não) são mais simples do que lágrimas,

Teorias ou fórmulas mágicas.
Não posso perder meu tempo, que a vida é curta.
A outra vida, a morte, o meu ouvido escuta.

Aquilo que se vê como luz é ceifado cedo.
Não quero conhecer o sucesso. Eu tenho medo.

Minha mão está aberta e você pode perceber.
Eu sou simples, a sociedade que complica.
Se você quisesse o mesmo, eu poderia lhe fazer feliz.
12/10/96

A MÁ


É como o cheiro do perfume que realça
no dia seguinte, após o banho
que tira o suor, desimpedindo a fragrância.
Coração acelerado,
gosto de carne viva nos lábios:
fui aceito moralmente na sociedade vampírica.
Meus olhos pesados colocam meus pés sobre
as nuvens,
minha capa preta-vinho.
Meu corpo está todo dolorido
- quase não parei de buscar
a essência da sua vida
a noite toda nos trilhos da meia noite.
Sina a esmo no mato deserto
contra a luz que vinha de longe ferindo
meus olhos e ouvidos bem abertos.
A boca apertada sentindo
o gosto de sangue nos lábios.
A língua morta na boca,
as pernas se transformando em cauda,
os braços transmutando a asas
num desvairo de sempre aceitar mais
e sempre, diferentes coisas.
Seu olhar confunde o meu.
Não tenho demônio de adivinhação:
tenho o dom de discerni-los, Espíritos.
Mas quando eu dominá-lo
vou ter que escrever com o sangue
(que sobe ácido, doce e rápido
para descer aço morno, pasto)
o licor do seu beijo.
Com Poder transfigurei,
num vôo rasante nos encontrei
e bebi sua vida seu sangue.
Seu órgão me serviu apenas porque
eu sei quem eu sou, você não.
25/05/98

domingo, 8 de março de 2009

INFORMAÇÃO SOLIDÁRIA


Quantas pessoas você conhece? Quantas existem no mundo? E aquelas que morrem por causa do egoísmo alheio? Uma parte dessas é porque não receberam órgãos de doadores, cujas famílias se recusaram a doar.
A evolução da ciência chegou a tal ponto de conseguir retirar um órgão vital de uma pessoa e faze-lo funcionar no paciente que tem comprometidas as funções do seu. O sistema de saúde no Brasil é muito bem preparado para captar, transportar e implantar órgãos. E a fila de espera é grande. Mas a decisão de doação está nas mãos da família que perdeu o ente querido, seja por um fato inesperado ou num processo lento. Se é do seu interesse doar seus órgãos, comunique à sua família.
Entretanto, muito mais vidas poderiam ser salvas se não fosse a resistência das famílias enlutadas. Os motivos podem ser vários, desde o simples desconhecimento, passando por fatores culturais e até crenças religiosas. Conversar com o médico é a melhor maneira de sanar as dúvidas sobre o assunto e tomar a decisão acertada num momento de tão grande dor: praticar a solidariedade, permitindo que os órgãos sejam transplantados.
Além dos médicos, o governo é responsável por conscientizar a população, com campanhas publicitárias que demonstrem a dificuldade de se achar um doador compatível e que demonstrem a importância de ajudar, de se doar.
Por tudo isso, as famílias devem se conscientizar e permitir a retirada dos órgãos; e que seja a vontade de cada cidadão doar seus órgãos.

[redação dissertativa para a seleção do curso de Administração à distância da ULBRA.
Tema: “Por que as pessoas em geral têm tanta resistência à doação de órgãos?“]
08/03/09

A IMAGEM QUE VAI


Não é tristeza, estou só pensando.
Não é angústia, estou só lembrando.
Nem é atração, estou só olhando.
O que parece ser a miragem real,
A realidade de costas, de costas para mim.
E um nó na garganta não me deixa chorar,
E a longa distância me obriga a chorar.
Não é tristeza não. Não é angústia não.
Estou pensando, estou lembrando,
Estou sentindo Aquela dor, Aquele amor,
E é tão intenso que parece fantasia.
O invisível se torna real nos corações amantes
Amanhã (depois), hoje (agora) e ontem (antes).
Você não sabe o que vê e mesmo assim, lhe evito
Lhe procuro e entro no seu caminho.
As coisas são o que parecem ser.
Não estou pensando, é só tristeza.
Não estou lembrando, é só amargura.
É atração enquanto estou lhe olhando.
E você nem vê...
As coisas são, o que parecem ser.
E você não vê o que parece ser.
23/10/96

sexta-feira, 6 de março de 2009

QUERIDO DORIAN GRAY:


25 de janeiro de 2004.

Terminei há pouco de ler seu romance e digo-lhe com grande satisfação e um profundo pesar que não esperava um gesto tão inocente como o seu, de tentar destruir o retrato. Já era de se imaginar que com uma relação tão profunda entre suas máculas e vícios, tal ato lhe mataria, suicídio! Mas tenho com você grande semelhança, que vai além de seus vários anéis e minhas sempre três alianças características (todos me perguntam o significado, mas quando digo que elas não têm nenhum, ficam decepcionadas... Assim, invento estórias, e a verdadeira é que simplesmente adoro o ouro – principalmente o branco – apesar de não ter nem o cheiro da sua riqueza ou sua estirpe nobre).
Senti como se mesmo sem me conhecer, você tivesse me influenciado de forma parecida àquela que o livro e o próprio Lorde Henry o influenciaram na época de sua adolescência. Minha curiosidade quase não se conteve ao querer saber o título do livro que você leu, mas você não o citou, prevendo que resultados funestos isso teria. De qualquer forma, a fascinação dos sentidos (“Curar a alma por meio dos sentidos e os sentidos por meio da alma”.) atravessou as gerações e me alcançou em pleno século XXI. É pena que tudo atravesse a alma e a transforme, mas não permaneça; as pessoas continuam tão vazias quanto antes; não aprendem nada nem se refinam ou se destilam – o vinho envelhece, tornando-se melhor; os homens no entanto, emburrecem. Uma vez e nunca mais, um pouco e sempre mais: é assim que pulsa o desejo da alma insaciável, despertada pelos sentidos e pela razão; e daí em diante dança e equilibra-se sobre a fina música sensual. Somos tão depravados! Mas em quase nada nossa aparência demonstra a torpe maldade dos corações. A conclusão a que cheguei foi: apenas um homem disposto a enxergar o mal irá encontrá-lo em qualquer lugar que seja, inclusive na alma das pessoas. Nem eu ou você imaginaríamos a variedade, a legalidade e o alcance que as drogas alcançam hoje em dia. Tudo que vivencio recorda-me o tudo que existe apenas nos momentos de prazer: os odores, aqueles odores do intenso prazer; as vozes, aquelas vozes no silencioso prazer; as cores e formas, aquelas cores e formas de puro prazer. Não quero apenas viver intensamente como você, e simplesmente passar pela vida sem construir nada. O amor, a arte, a vida, a morte. Você deveria ter aprendido que nada pode ser mais pernicioso ao homem que a bondade – através dela, ele enxerga mais nitidamente sua essência maldosa e cede a ela: a bondade sempre perde. Foi assim sua amizade com Basílio; e depois você realmente creu que tinha se tornado melhor? Que seus objetivos eram beneficentes? Eu penso em melhorar meu refinamento e minhas capacidades, como concentrar o máximo de fel no mínimo de mel. Tenho um pequeno receio de que no fim das longas noites e da curta vida, eu esteja sozinho, como você: rodeado de pessoas que não podem me acompanhar aos locais que freqüento, e muito menos nas discussões etéreas do meu pensamento. Não tenho a desenvoltura necessária a uma vida socialmente saudável, penso ser mortalmente aleijado das virtudes atrativas da coletividade. Assim contemplo a cada vez que respiro, minha tragédia vital. Meus olhos escurecem e vejo seu rosto no fundo de minha alma: é inútil tentar curar os sentidos ou a alma.

Com triunfo, i. G.,
um descendente menos favorecido.

quinta-feira, 5 de março de 2009

A DIFERENÇA ENTRE O QUE É E O QUE NÃO É – O DESEJO DO SER DE NÃO SER


Que todo eu esteja errado
e que tudo isto, certo.
Meu coração está errado.
Minha razão está errada.
Meu ser está errado
e todos estão certos.
Deus não estava errado,
o diabo não estava jogando,
e eu não estava correto.
Só queria ver
da forma que todo mundo vê.
As facilidades e privilégios
que ouvi existirem.
Suas palavras são tão doces de ouvir que
eu demorei só pra ter você por perto.
Nada é o que parece ser.
Ainda eu engano no olhar.
Eu só queria provar pra mim mesmo
que não há nada pra provar,
seja teste ou comida,
você ou sua filha.
O que mais dói é amanhã:
você vai ver
não vou lhe ver.
Você passou e esqueceu
como a primeira coisa que lhe passou pela cabeça
hoje de manhã ao acordar.
Porque hoje à noite
não serei mais
do que uma lembrança talvez amarga
a lhe incomodar.
Portanto esqueça
como esqueci que fui esquecido
das intenções e das promessas.
Palavras são frágeis.
Pensar só não basta.
Se fizer sem harmonia, não faça.
Eu desafino caso você insista.
Quem dera você entendesse-me;
E que você estivesse certo;
E que meu mundo fosse fantasma.
09/12/97

quarta-feira, 4 de março de 2009

A CORRIDA


A vida deveria correr para trás,
Nasceríamos velhos e morreríamos de criança.
Que bom seria
Poder planejar tudo antes de acontecer...
Mas adiante vai a vida
E que se corra para alcançá-la.
(E eu pergunto:
De quê nesta vida não se corre atrás?)
O Tempo, a Felicidade, o Prazer,
E o Amor.
Corre-se de chuva,
Mas nela eu prefiro andar.
Corre-se do prejuízo,
Mas não se perde o conhecimento,
A experiência,
O que estou aprendendo.
Rápido e rasteiro,
Porque é preciso correr;
Se eu não chegar mais cedo,
Você pode não me achar
Pronto, preparado.
(Alguém me preparou pra você,
Que me prepara para outro alguém.)
É uma corrida contra o tempo.
O ideal seria que o Tempo diminuísse,
E a Vida corresse pra trás.
20/02/97

segunda-feira, 2 de março de 2009

Apresentação - Introspecções de Nós, Livro 2: Feijoada Malagueta



Em Água com Açúcar, não resisti à tentação de alterar e de reescrever trechos e mais versos do que já estava fixo: o temor de uma má interpretação por parte de alguém, sobre as palavras contidas no livro, e sem que o autor estivesse por perto para explicar seu sentido exato ou sua relativa irrelevância, me assustava. (Ainda me assusta.) É que o criador nunca sabe onde a criação vai parar: como um filho, ela toma novos rumos, e às vezes inesperados a nós. Mas esta é uma decisão que não cabe a mim. Afirmo que meus poemas são maiores do que eu (quando a soma puder ser maior que o inteiro!), e sozinhos fazem seu caminho; de quando em quando mandam lembranças... Intrigante é a dimensão de livro que tomam juntos, fora da ordem cronológica de criação e longe das referências dos motivos pelos quais foram escritos. E eu inclusive, me surpreendo questionando-me “Sobre o quê? Que quer dizer este poema??” Não me lembro, e ele, doido de pedra, bate-me de forma diferente, revelando-se outro, por baixo da colcha de retalhos, sob uma nova ótica.
FEIJOADA é assim: não é bom comer todos os dias, pois é de difícil digestão (quem se engasgou com Água com Açúcar que se cuide!), forte, insalubre, pesado, demente, e com algumas partes repugnantes até: Tomei a liberdade de misturar à farinha e ao feijão aquilo que os sinhozinhos deitavam fora de sua cozinha, e acrescentei a MALAGUETA, pra evitar que tudo se deteriorasse ou que eu vomitasse com o cheiro ao pôr uma porção na boca. São lembranças com sal e pimenta.

Nada é o que parece ser, e
Tudo é o que parece ser.
Sei bem o que não sou e o que não quero.

Os temas, apesar de abertos, continuam fechados com as mesmas velhas chaves: metáfora e parábola. Mas isto já é outra história. Fiz a minha parte, satisfiz o meu desejo. Embora uma parte dos projetos possa ainda estar nos rascunhos. São eles quem sonham sair das gavetas! – Eu não tenho responsabilidade, a partir do momento em que ganharam vida...

09/10/03

Neste blog e abaixo, você lê o Livro Água com Açúcar, publicado na internet em janeiro e fevereiro de 2009. Acima, divulgo o conjunto que chamar-se-á FEIJOADA MALAGUETA.

Bom apetite.