quinta-feira, 2 de abril de 2009

APO-TEO (AFASTAMENTO DE DEUS)


Estou em chamas.
O sol me queimou.
O inferno mora em mim.
O fogo está ardendo.
A fumaça vai longe.
Todos podem ver.
Não adianta tentar abafar.
Um mentiroso reconhece o outro.
Eu sei.
Alguém sabe.
Vou me trancar na solidão gélida.
Vou me trancar na solidez de mármore.
No inverno polar.
Vou tentar apagar essa chama.
Chama viva de morte.
O inferno no céu.
O fogo no gelo.
Foi o sol.
O céu é de ferro.
A terra é de bronze.
O ar é sangue.
Minha vida é morte.
Qual o motivo, razão ou circunstância?
O bel-prazer.
A própria dor.
Não quero saber do sol.
Quero ficar branco como o gelo.
Branco como a morte: preta.
Sol.
Não ouço sua voz.
Não vejo você.
Não sinto sua quente presença.
Você não vai fazer nada, eu sei.
Ele não vai fazer nada.
Vou continuar lá na frente.
E do mesmo jeito que antes.
Não lhe conheço mas estou aqui.
Me desamarre que eu quero ir.
Você não cuidou de mim.
Não conheço sua voz.
Não conheço seu rosto.
Não conheço sua mão.
Você não se revelou.
Não me importam seus raios;
Que eles estejam nos pólos.
Vou estar debaixo da terra.
Debaixo do gelo.
Longe de você.
No inferno da solidão gélida.
No inferno da solidez de mármore.
No inferno do inverno polar.
Estou ardendo em chamas.
E vou me queimar.
No interior do fogo terrestre.
Sol.
Vou me consumir no inferno.
Há vasos para honra.
E para desonra.
Filhos e criaturas.
Não me importo com ele.
Faço parte delas.
Sol.
Pode derreter a calota.
Pode fundir a terra.
Estarei no meio de tudo.
Como você sempre quis.
Uma parte do todo.
Tudo vai acabar com fogo.
Já estou queimando.
03/04/96

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